A questão colocada por “Uma Missa para Dom Angélico“, filme que inicia a competitiva de documentários do Festival do Rio 2026, é a mesma que irrompe em tantas obras de cunho social: pode um filme ser didático e cinematograficamente interessante ao mesmo tempo?
É preciso acreditar que sim, do contrário teríamos que fechar os olhos a todas as inovações do cinema revolucionário soviético. Mas um filme como “Dom Angélico” parece acreditar que não — que um discurso correto basta para sustentar um filme.
Daí todas as escolhas da diretora Emilia Silveira apostarem no menor denominador comum. Estão aqui as entrevistas com padres e participantes dos protestos organizados por Dom Angélico, as fotos de arquivo, o material da época. Tudo muito bem elucidativo. Tudo, afinal, didático.
Até a trilha sonora de músicas sacras, composta, supomos, em MIDI (isto é, um formato digital que permite a sintetização de sons por meio de uma controladora ou diretamente em uma interface no computador), reforça essa impressão de jogar no seguro: o MIDI, afinal, é a epítome da busca pela convencionalidade. Na falta de uma orquestra, emula-se.
Mas é uma convencionalidade que, como a trilha demonstra, se atinge sempre de forma trôpega e nunca por completo. Todos sabemos como se dá uma entrevista para documentário: primeiro plano, enquadramento do peito para cima, iluminação uniforme. Mas aqui, logo no início, uma entrevista com uma professora chama atenção pela inadequação a esse padrão de suposta qualidade, régua de qualquer documentário respeitável.
Falo do pouquíssimo teto do quadro, isto é, o espaço entre o topo da cabeça da entrevistada e o limite do frame. Curiosamente, boa parte do enquadramento é tomado pela mesa onde a mulher está sentada, que ocupa toda a porção inferior e boa parte do centro da imagem. À pobre coitada, cabe só um tantinho de espaço na parte de cima, com o cocuruto esmagado pelo limite da tela.
Ou seja: se o filme tem dificuldades com o básico, melhor deixar isso de lado e investir num caminho próprio — não estaríamos reclamando do espaço superior de um enquadramento se o documentário tivesse qualquer personalidade própria.
Não que a presença de Dom Angélico, ou de um padre como Júlio Lancellotti, não tenha força ante a câmera. Tampouco é desinteressante aprender sobre a militância do episcopado durante a ditadura. Mas a pergunta que devemos nos fazer numa situação dessas é: esse filme tem algo a mais a me mostrar do que um artigo da Wikipedia mostraria? Com “Uma Missa para Dom Angélico“, a resposta é um retumbante “não”.














