O primeiro livro que li de Stephen King foi “Carrie, a estranha”; curiosamente, o primeiro livro publicado pelo renomado escritor de terror. Várias coisas me chamaram atenção durante a leitura e fizeram com que memórias do livro me acompanhassem ainda na vida adulta. Quando dei play em “Carrie”, de Mike Flanagan, tive a sensação de estar de volta a minha adolescência, mas com o olhar amadurecido que a vida nos traz. Assim, imergir na vida de Carrie, transportada para 2026 e com todos os elementos que remontam a adolescência contemporânea, teve um gosto agridoce — muitos pontos positivos, mas também interrogações sobre o caminho adotado pelo diretor e roteirista.

Sua escolha de adequar a série para um contexto moderno, no qual a crueldade migrou para as redes sociais, é um dos grandes acertos do showrunner, já experiente em adaptar obras de King, só lembrar de “Doutor Sono” e “A Vida de Chuck“. Assim, Carrie (Summer H. Howell) continua sendo uma esquisita em meio a sociedade colegial, mas dessa vez seu bullying se torna rastreável e mais palpável, mas não menos cruel. Esse caminho, no entanto, oferece algo que ainda não tinha visto no original e nem nas inúmeras versões para o cinema: a oportunidade de se defender.

Carrie deixa de ser a menina boba, alienada pelas convenções radicais religiosas da mãe, para tomar um empoderamento doméstico e externo que deságua ainda em tragédia — porque certas coisas nunca mudam. Mas ao fortalecer sua independência, o roteiro cria uma nova Carrie, diferente da proposta de King. E quem sofre com isso são os personagens que orbitam a sua volta – bem, nem todos, mas isso revela uma falha na narrativa apresentada.

Ao reimaginar a série, Flanagan tinha a liberdade de conduzi-la usando apenas o material literário como base, algo que ele já havia feito em “A Maldição da Residência Hill” e “A queda da Casa de Usher”; nesse processo, contudo, alguns personagens vão perdendo sua função conforme a trama avança, enquanto outros parecem crescer e dominar a tela. Sue Snell (Siena Agudong), Tommy Ross (Joel Oulette) e Desjardin (Amber Midthunder) são figuras que iniciam a narrativa tendo seus pontos de conflitos sendo desenvolvidos em paralelo a trama principal, uma vez que são figuras importantes para o desfecho trágico da jornada da protagonista, no entanto, a partir de metade da série, eles são totalmente esquecidos para que a trama entre Chris Hargensen (Alison Thornton) e a mãe de Carrie, Margaret (Samantha Sloyan), assuma a centralidade da discussão. Nesse ponto, penso no quanto a atualização do clássico é positiva e também negativa.

Carrie Vermelha: atualização curiosa de status 

É interessante como eventos importantes do livro são transpostos para a série, contudo, ao mesmo tempo tenho a sensação de que Flanagan busca ressignificar o papel dessas situações e com isso molda a percepção que se tem da participação de Carrie na trama, de forma geral. A primeira menstruação e a caminhada do ginásio até a casa são exemplos disso, além das cenas não parecerem se interligar com a realidade, afinal por mais pérfida que algumas meninas possam ser, zoar a outra por se sujar no período menstrual, a ponto de expô-la em rede social, chega a ser hiperbólico, trazendo um tom mais malévolo às participantes do momento. 

Por outro lado, Carrie destrói a cidade quando sai do baile em direção a sua casa e vários dos entrevistados afirmam que a cidade foi destruída, nada disso é visto por nós, uma vez que a narrativa prefere colocá-la como uma menina que está se libertando do bullying e partindo para viver a vida que sonhou. Nos dois casos, aponta para um viés maniqueísta da narrativa, que não depõem a favor da narrativa.

As tentativas de acinzentar a trama resultam na perda de caracterização dos personagens, é o que ocorre com Desjardin — que perde espaço com a resolução da trama de pedofilia — e Sue Snell, que é retratada no discurso como a rainha do colégio, mas na prática vive questões tão internas que não conseguem dialogar com o que acontece com o resto da narrativa. Até o seu envolvimento com Tommy Ross, começa bem amarrado, mas termina sem muito sentido, considerando que o atleta parece servir unicamente como par romântico alternando entre ela e Carrie. 

Isso se deve ainda a inserção de Emaline (Thalia Dudek) que ocupa o espaço que deveria ser de Sue na vida da protagonista. Além de que a questão dos iluminatis fica solta na narrativa. Elas são citadas nos capítulos iniciais e finais, mas a história ficaria bem mais concentrada e com um desfecho menos agridoce, se não houvesse sua intromissão. Sem querer ofender Flanagan, mas assim como a trama de Rahul Kohli, parece existir unicamente para que tanto o ator britânico quanto Kate Siegel contribuíssem em mais um trabalho do diretor. 

Carrie encontra um novo caminho

Nem tudo, entretanto, tem um tom maléfico a narrativa. O roteiro trabalha muito bem a humanização de Margareth e de Chris. Conseguimos ver uma porção mais acinzentada das duas antagonistas de Carrie, além de ambas representarem elementos antagônicos diferentes, enquanto uma atua num campo emocional, a outra usa o cyberbullying como arma. Neste aspecto, ambas ganham tridimensionalidade, que de um lado constrói uma personagem ambivalente, que é o caso da fanática Margareth, e por outro acentua a mesquinhez e egoísmo de Chris. 

Tudo isso também é um caminho para que o diretor aborde um tema muito presente na sua filmografia que é a complexidade familiar. É difícil antagonizar por completo uma mãe que quando a filha sofre bullying na escola, bate de frente com seus opositores utilizando as mesmas armas, ainda que a priori não as conheça. Isso acentua o amor que ela tem pela filha, enquanto em todas as versões de Carrie a mãe parece ter asco e culpabilizar a filha pela própria existência — afinal no livro Carrie não é fruto de um ato consensual —, aqui Margareth parece realmente amar a filha, o que não justifica seus atos, mas aumentam a complexidade deles.

Este fato nos remete também em como Flanagan aborda nas entrelinhas os problemas sociopolíticos norte-americanos e como eles tem coparticipação na forma como os adolescentes vivem. Ross, por exemplo, precisa trabalhar muito, porque não há previdência que possa prestar auxílio ao pai acamado, além de haver outros personagens que estão em situação de estresse devido a condições precárias de existência.

Dois pontos, para mim, são o que tornam “Carrie” uma obra a ser apreciada: Carrie Vermelha e a abordagem do luto. No primeiro caso, o diretor consegue realmente conversar com seu público-alvo utilizando linguagem e suporte familiar familiar para eles; assim mostra como o abuso das redes sociais geram consequências no mundo real, nos oferecendo uma versão contemporânea e que é funcional e tangível tanto do livro do arraso, de Meninas Malvadas, quanto de Gossip Girl. Afinal, todos querem e não querem estar na Carrie Vermelha. E é por meio dela que o discurso de ódio, tema recorrente da narrativa, se materializa de forma visível e visceral. 

Já em relação aos luto, gosto de como o roteiro o apresenta como o elefante no meio da sala, ignorado pela mãe e pela filha. Ele é mais um item somado tanto para o despertar de poderes da protagonista, quanto um termômetro que salienta o grau de abalo psicológico que existe dentro da família White. 

“Carrie” se constrói entre erros e acertos. Flanagan consegue atualizar a trama e repaginá-la, mas para isso sacrifica a caracterização de algumas tramas, enquanto dá aulas sobre o que fazer em outras. Tudo isso atesta a capacidade do diretor em dois aspectos muito importantes: o universo de Stephen King e o terror. Modéstia a parte, dois conhecidos de longa data de Mike Flanagan.