Em “Medley”, as raias das piscinas são o único lugar onde a jovem Lola parece ter total controle de sua vida. Uma talentosa nadadora em ascensão, a adolescente vive uma relação conflituosa com a mãe, ocupada demais com o trabalho para lembrar das competições da filha, e é assombrada pela ausência do pai, do qual ela não tem memórias claras. Depois de uma discussão familiar, Lola resolve pegar um ônibus e passar as férias sozinha na chácara do tio, numa cidadezinha no interior do Rio de Janeiro, onde ela conhece novos amigos e amores, passa a integrar o time de natação local e tenta desvendar mais sobre o passado do pai. Apesar das suas habilidades na piscina, suas frustrações tomam a forma do nado borboleta, o único estilo que ela ainda não consegue dominar.

O novo filme de Ana Luíza Azevedo se desenrola como um típico drama de amadurecimento adolescente, e representa um retorno da diretora ao universo juvenil que ela já tinha explorado em seu primeiro longa, “Antes que o Mundo Acabe” (2009). Dessa vez, a história surge do livro de mesmo nome, “Medley: ou os dias em que aprendi a voar”, de Keka Reis, que também assina o roteiro da adaptação.

Há um tom de melancolia muito presente ao longo da projeção, captado com eficiência por Ana Luíza em planos fechados e com profundidade de campo reduzida, e beneficiado principalmente por Mel Maia, que assume o papel da protagonista Lola com muita propriedade e nuances de personalidade. A atuação da jovem atriz é o elemento que mais salta aos olhos no filme, principalmente nos momentos de troca da personagem com a mãe, vivida pela veterana Mariana Lima.

Ainda assim, acaba sendo uma pena que o mergulho de “Medley” na vida de Lola não seja tão profundo quanto poderia ser. Por um lado, a ambientação do filme estabelece com muita destreza uma cidade do interior e seus personagens em plenos anos 1990, dando concretude ao mundo da personagem. Por outro, porém, a estrutura do filme, tanto no roteiro quanto na montagem, se revela frágil e previsível ao embarcar em arcos paralelos que não se fecham ou que se resolvem rápido demais para se estabelecerem como conflitos mais poderosos na jornada da protagonista. A relação com o novo namorado, a experiência da primeira vez ou a rivalidade sem explicação com a filha do treinador de natação são algumas dessas situações, por exemplo.

Não ajuda o fato de que muitos dos diálogos, especialmente entre os adolescentes, soam um tanto expositivos ou artificiais, como os flertes espertinhos do interesse amoroso de Lola. Até mesmo em termos de temporalidade, a extensão da história fica confusa: afinal de contas, quanto tempo de férias Lola tem nessa cidade? Todas essas situações nem sempre andam em compasso com a melancolia interior da protagonista, e o resultado na tela acaba tendo um ritmo anódino.

Entre um mergulho e outro de Lola, “Medley” tem seus melhores momentos quando a personagem precisa lidar com a ausência paterna e as eventuais revelações do roteiro para essa falta. Flashbacks difusos do pai, de quem quase nunca vemos o rosto e ouvimos apenas a voz, surgem em vários momentos em que Lola está nadando, o que ajuda a reforçar o papel desse vazio no íntimo da protagonista.

Essa ausência que norteia o conflito com a mãe é o motor do que “Medley” tem de melhor a oferecer. Apesar de suas fragilidades, o longa consegue ainda entregar um bonito momento ao final, que sugere que a liberdade que Lola busca talvez não esteja no espaço limitado da piscina, e sim na vastidão do mar.