A busca pela transcendência é a força-motriz de “Elsinore”, novo filme de Simon Stone exibido no Festival de Londres desse ano depois de passagens elogiadas em Telluride e Toronto. Ancorado por uma atuação brilhante de Andrew Scott (das séries “Sherlock” e “Fleabag”), a produção é um drama que tem tudo para agradar grandes públicos e chegar com força na corrida do Oscar, ainda que apele para alguns elementos formulaicos das biografias cinematográficas para contar sua história.
Falando nela, ela gira em torno de Ian Charleson (Scott), ator cuja carreira se direciona para o cinema após seu sucesso com “Carruagens de Fogo” e que vê sua chance de retornar aos palcos ao ser convidado para assumir uma badalada produção de “Hamlet”. Porém, tendo AIDS em estágio avançado, ele precisa ensaiar para um dos papeis mais desafiadores do teatro ao mesmo tempo que lida com uma saúde debilitada e o segredo sobre sua condição.
Considerando o seu tema, é impressionante como o roteiro de Stephen Beresford (que escreveu o simpático “Orgulho e Esperança”) consegue achar humor na situação de Charleson. A primeira metade do filme é, em essência, uma comédia ácida sobre os bastidores do teatro inglês e as desventuras de um ator tentando superar seu papel mais famoso. A interação que ele tem com um taxista, por volta dos 17 minutos de projeção, é hilária.
Momentos cômicos pontuam um filme que mostra muita empatia ao seu protagonista. Scott, um dos melhores atores trabalhando no cinema britânico hoje, consegue (com muito pouco) traduzir a angústia da espera na vida de um ator. O longa o acompanha durante os momentos mortos que passam no aguardo de que alguma coisa aconteça, um papel importante venha, etc.
A deterioração da sua saúde cria um senso de urgência para que essa alguma coisa aconteça e, diante da oferta para interpretar Hamlet no palco mais célebre do Reino Unido (o Teatro Nacional), ele se vê numa batalha contra o tempo para realizar esse sonho enquanto antes que a cortina se feche sobre sua própria vida. A sua corrida contra o relógio ecoa o sentimento verbalizado por Shakespeare, não em “Hamlet”, mas em “Ricardo II”: “eu desperdicei o tempo e agora o tempo me consome” (tradução livre).
O filme tem um invejável elenco de apoio, com destaque especial para Olivia Colman, que mostra seus talentos dramáticos para interpretar Margaret Johnson, a estoica médica que passa a tratar Charleson durante os ensaios da peça. No entanto, Scott domina a produção e sua potente interpretação aqui deve lhe render uma indicação ao Oscar de Melhor Ator do ano que vem (se ele vai conseguir ganhar de John Malkovich em “Cavalo Selvagem Nove”, só o tempo dirá).
Porém, para além das atuações, é clara a aderência da produção a batidas narrativas bastante tradicionais, que são aparentes aos espectadores mais perspicazes. A resiliência do tratamento, a devastante sessão chororô com os pais, os acertos de contas com ex-namorados: todas as cenas que você provavelmente espera ver em um filme como esse estão aqui, o que tira um pouco do frescor da empreitada.
Dos clichês, o mais abusado é a trilha sonora piegas (cortesia de Stefan Gregory), que chega a ser ensurdecedora nos momentos finais do longa. É impossível não pensar na ironia dessa decisão tomada pelos realizadores, considerando que o protagonista aqui é um ator cuja fama é constantemente ofuscada pelo sucesso da trilha de seu filme mais popular.
Entretanto, esses pormenores não apagam os méritos de “Elsinore”, uma produção que não está tentando reinventar a roda e não há nada de errado nisso. Eis um drama competente que consegue abordar um tema pesado com leveza e, como no teatro, dá amplo espaço para o seu elenco brilhar.
















