O santo patrono dos bromances disfuncionais está de volta. “Cavalo Selvagem Nove”, novo filme de Martin McDonagh, vê seu diretor usar seu estilo costumeiro (uma comédia ácida com toques de violência) para contar uma história sobre lealdade e arrependimentos. Ainda que as atuações de seus protagonistas valham o ingresso, o longa, exibido no Festival de Londres depois de sua premiada estreia em Veneza, tem como pano de fundo um contexto político que põe o dedo nas veias abertas de plateias latinoamericanas.
O contexto em questão é o Chile de 1973, onde os agentes da CIA Chris (John Malkovich) e Lee (Sam Rockwell) estão infiltrados para arquitetar o cenário sociopolítico que levou à ditadura de Pinochet em setembro daquele ano. Com seus planos em bom andamento, eles decidem fazer uma viagem à Ilha de Páscoa, onde a revelação de segredos e o comportamento cada vez mais errático de Chris criam uma atmosfera de tensão que testa a amizade dos dois homens.
Como seu filme anterior, “Os Banshees de Inisherin”, “Cavalo Selvagem Nove” também vê dois amigos em uma ilha entrando em rota de colisão por não conseguirem se expressar propriamente entre si. Nesse novo filme, no entanto, McDonagh deixa a tragicomédia elegíaca de seu filme anterior e investe em uma sátira paranoica. Aqui, seus protagonistas não se mostram incrédulos diante do que não conhecem um do outro. Eles se mostram temerosos.
Aproveitando a época da trama e a ocupação de seus protagonistas, o diretor veste a produção com a roupagem de um thriller político, mas ela é, em essência, uma comédia de amigos. E como toda boa comédia de amigos, boa parte do humor vem das incompatibilidades da dupla principal: enquanto Lee é mais jovem, pragmático e em contato com a vida, o mais velho Chris é imbuído do descaso e irrequietude típicos de alguém perdido no próprio cinismo.
Há uma razão particular para que Chris se porte de maneira progressivamente mais descuidada e para que Lee o observe tão de perto durante a viagem – a qual, para mantê-la sem spoilers, não vale a pena ser mencionada nessa crítica. Porém, é válido dizer que essa razão coloca o personagem de Malkovich em contato com a sua própria humanidade. A conversa entre ele e uma estudante (Mariana di Girolamo, do ótimo “Ema”) que ele conhece na viagem, por volta dos 50 minutos de projeção, convida o espectador a sentir empatia com quem é diferente e serve como tese moral do filme.
Tendo dito isso, o roteiro não torna aceitar esse convite uma decisão fácil. Ele não faz nenhuma questão de esconder que, a despeito de suas fragilidades, Chris e Lee são pessoas desprezíveis. Além disso, o longa faz repetidas piadas com os papéis deles em diversas operações americanas de desestabilização política – um tópico longe de ser cômico para públicos de países como o Brasil.
Ainda assim, é inegável que Malkovich dá um show interpretando o instável Chris, o que lhe rendeu o prêmio de Melhor Ator em Veneza e o coloca forte na corrida do Oscar do ano que vem. Rockwell, no entanto, é o verdadeiro triunfo do filme: seu Lee é multifacetado, alternando entre frieza e sensibilidade em segundos sem perder o preciso timing cômico. A forma como suas performances interagem é o que dá sabor a “Cavalo Selvagem Nove” – mas o gosto amargo de pensar na possibilidade de outros Chris e Lee trabalhando na surdina, nos dias de hoje, permanece na boca bem depois dos créditos rolarem.













