O sucesso inesperado de Godzilla Minus One passou um recado importante para a indústria cinematográfica: atingir excelência narrativa e técnica gastando pouco. Um feito tão impressionante que o filme teve a proeza de conquistar um Oscar na categoria de Efeitos visuais. Um verdadeiro tapa na cara de Hollywood, que tantas vezes associa grandes produções a cifras astronômicas. O caminho de uma continuação viria com mais responsabilidades e expectativas. Consciente disso, o diretor Takashi Yamazaki retorna em Godzilla Minus Zero com uma sequência digna do anterior, elevando o nível de destruição e catarse, mas sem esquecer da carga emocional.
Um dos maiores desafios que Takashi enfrenta nessa continuação é evitar que Minus Zero caia no tom galhofa presente em vários filmes do Godzilla. Distante da extravagância dos filmes do Monstroverso, ele preserva a seriedade conquistada do primeiro filme. Ele administra bem o núcleo emocional humano com o confronto dos Kaijus, dando a mesma importância narrativa. Esse equilíbrio é exatamente o que falta em muitas produções do gênero e Takashi cumpre com louvor essa questão mesmo que o filme siga uma estrutura bem delimitada e uma narrativa menos surpreendente.
Para saber como desenvolver a continuação, o diretor afirmou em entrevista à Empire que utilizou as continuações Aliens, o Resgate e O Exterminador do Futuro 2 como influências para sua abordagem. O fator que torna essas continuações singulares é a forma como Cameron expande a mitologia através de outro ponto de partida e é justamente isso que Takashi se preocupa. O trauma da bomba permanece forte, mas ele explora mais as consequências cruéis do ataque nuclear, de maneira crua e direta. O medo da cizânia da tranquilidade com uma nova ameaça joga os personagens a ter que revisitar feridas profundas.
O sofrimento é mostrado sem pudores, com pessoas feridas para todos os lados, suplicando por ajuda, cadáveres queimados, o abalo emocional de crianças órfãs pela guerra e a desordem nos atendimentos médicos. Além disso, o longa ainda faz uma analogia inteligente relacionando as mutações genéticas com as placas do Godzilla. O mais assustador disso é como esse medo ecoa na atualidade, visto a instabilidade da geopolítica mundial. O assunto vem à tona em um mundo cheio de conflitos, guerras e disputas de poder, evidenciando ainda mais o temor e aproximando o filme para a realidade.
O problema não são os monstros e o perigo que eles evocam, mas a metáfora que eles representam ao povo japonês, suas dores internas. Ghidorah simboliza a ameaça estrangeira, enquanto o Godzilla, que no primeiro era a destruição encarnada, ressurge como uma alegoria à soberania e à resistência do país. Essa leitura dá mais nuances ao contexto histórico sobre a influência dos americanos no pós-guerra no Japão. O Arco do professor Kanji Murakami, de Min Tanaka, traz essa vontade de vingança aos EUA pelo ataque nuclear em Hiroshima e Nagasaki. Ele enxerga o Godzilla como uma retaliação, com uma cena que exemplifica isso.
Em um enfoque mais pessoal, o drama humano continua forte e sensível, algo que os filmes da franquia do Monstroverso jamais chegaram perto de alcançar. A carga emocional é angustiante justamente pelos dilemas enfrentados por eles. O roteiro não tem medo de expor esses machucados e inseguranças dos personagens diante dos monstros. A culpa e a responsabilidade se misturam para garantir a sobrevivência e um futuro para as próximas gerações.
O protagonista Koichi Shikishima, de Ryunosuke Kamiki, tem um novo dilema para lidar, o medo de perder sua família. Após encontrar um novo propósito, ele encara o compromisso de zelar pela proteção e bem-estar de sua esposa e filha. Por outro lado, Noriko, de Minami Hamabe, convive com as cicatrizes físicas do ataque do Godzilla. Ela se torna uma ferramenta biológica, em que seu corpo vira um recurso estratégico e isso cria um conflito entre fugir da missão ou encará-la.
Na parte dos Monstros, Takashi constrói bem a periculosidade de Ghidorah assim como a preparação para o confronto dele com Godzilla. Ele organiza bem os momentos de cada um, trazendo peso e impacto para eles em cena. A clássica rivalidade deles é tratada com brutalidade e violência em que o diretor filma com precisão a ação grandiosa e o caos diante das criaturas. A câmera passeia com classe pela destruição e transmite a atmosfera de desespero e desolação.
Outro mérito a ser enaltecido é a notória evolução técnica da obra. Os efeitos visuais estão mais luxuosos e épicos. A decisão de filmar o filme em IMAX, sendo o primeiro filme japonês a fazer isso, dá mais a percepção de escala, os monstros causam imponência e as destruições das cidades são cheias de detalhes. A iluminação ajuda a ver a textura e movimentação do Godzilla e Ghidorah no cenário. Além disso, o trabalho de som é primoroso, o barulho e a trilha sonora criam uma sinfonia imersiva belíssima.
Perpetuando os méritos deixados pelo anterior, Godzilla Minus Zero aprofunda, de maneira visceral, as cicatrizes deixadas pela guerra. Por trás dos monstros gigantes, escondem-se alegorias dos medos, das contradições e dos horrores da própria humanidade. Takashi entrega um filme honroso ao antecessor, que não chega a superá-lo, mas chega perto. Pelo visto, o diretor entendeu muito bem a lição de James Cameron em relação às continuações.
















