Como você contaria uma parte marcante da história da sua família? Essa é a proposta de Bruno Santamaría Razo ao retratar um momento significativo da sua infância em “Seis meses no prédio rosa e azul”. A co-produção de México, Brasil e Dinamarca é um longa-metragem de ficção, mas com um tom híbrido e autorreferente, uma vez que o diretor e roteirista recorre ao cinema para revisitar as suas memórias a fim de enfrentar uma dor que atravessou a sua família.
Somos levados ao início dos anos 90 e toda a explosão de cores, danças, festividades e emoções calorosas que um lar latino é capaz de fornecer. Bruno (Jade Reyes) é um menino de 11 anos que desenvolve sentimentos pelo melhor amigo, ao mesmo tempo em que precisa lidar com o diagnóstico de HIV recebido pelo seu pai. Para retratar esse momento impactante, o diretor recorre ao afeto e a sensibilidade para contar e relembrar a experiência vivenciada em família.
O roteiro utiliza um olhar observacional para que penetremos nesta família sem nos envolvermos. Como se fossemos uma mosca, dentro do apartamento rosa e azul, acompanhamos o protagonista partir em uma jornada dupla de auto-descoberta. Por um lado, entendendo a si próprio como um indivíduo que sai do casulo da infância para alcançar uma adolescência cheia de hormônios e a busca de continuar sendo fiel a si mesmo e não reprimir seus desejos, os quais se manifestam por aspectos aceitáveis quando se é criança, mas questionáveis pela sociedade patriarcal. Nessa esteira, o olhar sobre o pai e seu papel de referência no seio familiar discorrem acerca da perca da inocência.
A descoberta de seu diagnóstico suscita questionamentos sobre a redoma sagrada de Bruno e que racha diante de alguém que ainda está com sua identidade em formação. A fotografia de Fernando Hernandez Garcia marca essa situação visualmente por meio do uso das cores rosa e azul nos ambientes, fazendo-as harmonizarem organicamente. Estas poderiam indicar o viés conservador que destina gêneros às cores, mas, em “Seis meses no prédio rosa e azul”, se misturam dentro do juvenil e de seu pequeno mundo em ruínas.
A escolha de fotografar em 16 mm também aproxima o público de Bruno, uma vez que o grão analógico deixa a sensação de estarmos embarcando numa viagem no tempo intimista e estilizada – não só pelo glitter no corpo de Bruno, mas também pelo olhar destinado por ele a sua casa. Salientando como o diretor olha para sua dor e as cicatrizes de sua adolescência de forma sensível e tocante.
Visivelmente, essa delicadeza se torna palpável nas cenas de encontros da família, por meio da dança, da salsa e da libertação que o movimento traz. Assim, a arte é utilizada como uma forma de sobreviver a dor. Há uma ternura na forma como o protagonista é posto vivenciando o sofrimento. O diretor mostra esse lado afetuoso para exemplificar também como traumas e cicatrizes vão sendo transformados na singularidade do cotidiano. Seja na beleza de uma dança em família, de uma abraço materno ou de um desenho feito por um pai o qual se ama muito. O fragmento que o diretor traz de sua vida é tocante, sensível e, mais do que isso, evidencia que há momentos que nem o tormento consegue macular.
Parte disso, se atenua com o calor humano, a compreensão e o caminho escolhido pelo roteirista de não romantizar os fatos ou ocultar as dificuldades que surgem diante da nova condição familiar do protagonista. Dessa forma, é muito sensível e significativo que Razo deseje recuperar as sensações da infância em um projeto marcado pelos sentimentos, pelo afeto e pela vivência cotidiana. Elementos que nos rodam diante da sensação de estarmos em um lar latino cheio de cores, texturas e dissabores.
É muito bonito o que Bruno Santamaría Razo constrói em “Seis meses no prédio rosa e azul“. Ao tentar retratar as memórias do período que viveu neste ambiente, o diretor traz delicadeza emocional e um olhar intimista até mesmo sobre os personagens que facilmente o público julgaria, o que é dissipado pela sensibilidade ímpar usada para traçar os sentimentos de uma família que está sendo corroída. No final das contas, o que acompanhamento em tela é um filho que se revela pelo olhar do seu pai e pelo amor e empatia que nutre pela mãe. Mais do que superar um trauma ou lidar com as cicatrizes que ficaram da adolescência, Razo homenageia seus pais e, consequentemente, nos permite usufruir da singeleza que foram os seis meses nesse prédio.















