Quem nunca passou pela saudade antecipada? Aquela falta de algo que ainda vai acontecer ou já sentir a ausência de uma pessoa mesmo ela estando ali do lado? Miranda (Andira Angeli) está vivendo isso com a iminente partida da amiga e colega (Isabela Catão) para longe. Somos testemunhas do último dia de trabalho delas juntas em 3×4, grata surpresa do cinema amazonense.

A produção surpreende por ser a estreia da diretora e roteirista Juliana Tizatto. 3×4 vai na contramão daquilo que se imagina de uma produção vinda de uma cineasta iniciante. Não temos uma história de viradas espetaculares ou grandes cenas dramáticas nem pretensões filosóficas vazias. Muito menos piruetas técnicas chamativas e naturais de marinheiros de primeira viagem experimentando todo tipo possível de recurso no seu curta.

Tizatto aposta na simplicidade discreta do cotidiano. É no dia a dia daquele lugar que está a atenção de 3×4. Através da fotografia em preto e branco de Valentina Ricardo somada à direção de arte precisa de Francisco Ricardo, somos convidados a entrar em um tempo e espaço que nem parece dos nossos tempos. Para além do fato de pessoas ainda recorrerem a fotos impressas em plena época de Instagram e do próprio espaço remeter às antigas bancas de revista, chama a atenção como o ritmo dali transcorre em outra velocidade. Há respiro, calma em um mundo tão veloz. Quando as duas amigas fazem seus alongamentos ao som da mensagem motivacional do chefe ou apenas almoçam está ali uma transcendência de um universo tão acolhedor e particular que até faz lembrar em certos momentos a aura de Dias Perfeitos, de Wim Wenders.

O foco do curta amazonense, entretanto, não está necessariamente nesta meditação proposta por Wenders. Tizatto utiliza este tempo/espaço particular para observar as singularidades de suas protagonistas. Se Isabela está sempre radiante, animada com uma simples máscara, encara o fim da parceria de frente e deseja navegar rio adentro pela Amazônia, a personagem de Andira é mais fechada, introspectiva, evitar lembrar da saída da colega e tem uma preguiça danada de encarar uma viagem para Presidente Figueiredo. E mesmo nestas divergências e jeitos de ser opostos, como se complementam e se entendem.

Tal sintonia conduzida de maneira delicada por Andira e Isabela em atuações absolutamente comoventes torna tão palpável a saudade de quem fica. E é a imaginação de Miranda pensando na amiga em sua viagem ao som do rio demonstra o maior feito de 3×4: mostrar um mundo complexo de sentimentos, por vezes, intangíveis a partir da simplicidade. Um feito raro e sofisticado para uma estreante na direção como Tizatto.