Não sou uma grande conhecedora de Fórmula 1. Sei os nomes e os rostos de alguns pilotos, mas nunca tive muito interesse em acompanhar as corridas, mesmo quando o Brasil ocupava uma posição de protagonismo na categoria. Tendo isso em vista, minhas memórias de Ayrton Senna em vida também não são grandes, até porque eu tinha cinco anos quando ele morreu. Muita gente da minha idade lembra, mas eu não tenho nenhuma recordação daquele domingo, 1º de maio de 1994. Meu fascínio pela figura dele veio depois, principalmente com o documentário de 2010, dirigido por Asif Kapadia. Talvez seja com pessoas como eu – ou com aquelas que não eram nascidas naquela época – que “Senna”, a nova série sobre o piloto brasileiro, tenta se comunicar o tempo todo. No entanto, no meu caso, o caminho escolhido não foi o mais eficaz. O didatismo exagerado é um obstáculo para quem tenta apreciar a minissérie de seis capítulos dirigida por Vicente Amorim e Júlia Rezende para a Netflix.

A produção começa com o acidente fatal na curva Tamburello, uma escolha que logo define a direção do enredo. A ambientação pré-Copa do Mundo de 1994 se mistura à expectativa da torcida brasileira diante da TV, aguardando ouvir o Tema da Vitória e o grito vibrante de Galvão Bueno anunciando o piloto no lugar mais alto do pódio. Para nós, espectadores, há uma sensação de onisciência: já sabemos que a câmera subjetiva vai se aproximar da mureta que, ao vivo e em cores, tiraria a vida de Senna (Gabriel Leone) para o mundo inteiro ver.

O artifício já conhecido das biografias, de partir do fim para voltar ao começo, também ocorre aqui. A fita rebobina algumas décadas e, após uma rápida passagem pela infância do piloto, logo segue para a ascensão dele no kart e depois nas Fórmulas Ford e 3. Já nesse início, o perfeccionismo e a determinação da jovem promessa são evidenciados tanto nas relações profissionais quanto no breve casamento com Lilian (Alice Wegmann).

É um início fluido, mas que já esbarra no grande problema de “Senna”: a insistência desnecessária em exibir letreiros com os nomes e cargos dos personagens a cada nova aparição. Embora esse recurso não seja inédito e nem sempre prejudicial em filmes ou séries biográficas, aqui ele se torna redundante, pois os próprios diálogos já seriam suficientes para nos ajudar a identificar cada um dos envolvidos, sobretudo nos primeiros episódios da trama. E isso não se limita a figuras como Alain Prost, Nelson Piquet e Niki Lauda – até o príncipe Rainier de Mônaco, que mal abre a boca e aparece por breves segundos, precisa de letreiro e falas para nos mostrar quem ele é.

E a Xuxa…

Por falar em gente que dispensa apresentações, Xuxa, como era de se esperar, ganha destaque entre os romances do piloto. É uma história irresistível do ponto de vista dramatúrgico: a mulher mais famosa do Brasil e o ídolo máximo do esporte se apaixonam e vivem um amor com prazo de validade, marcado pela distância física e pelos compromissos e pressões profissionais. 

Entretanto, surge outro problema que provavelmente só será notado pelos espectadores brasileiros: a escolha de uma atriz branca para interpretar uma personagem equivalente a Marlene Mattos. Mesmo que o nome da ex-empresária de Xuxa não seja citado, a mulher que aparece com a apresentadora em rápidas cenas, funcionando como ponto de oposição ao romance, tem falas e atitudes que remetem diretamente à figura real de Marlene. Esse ponto me chamou a atenção tanto quanto a pouca presença de Adriane Galisteu. No entanto, ainda há como justificar este segundo ponto, pois o momento em que a modelo e futura apresentadora aparece é no último episódio, que se dedica mais ao trágico GP de San Marino.

“Senna” enfatiza a incessante busca de Ayrton pela perfeição, mas não deixa de ser uma produção preocupada com o legado do piloto, tanto nas pistas quanto fora delas, com o trabalho social que ficaria a cargo da família após a morte dele. Como disse no início do texto, é um projeto tão didático que parece perfeito para apresentar Senna para novas gerações que não cresceram com ele, mas essa fixação também prejudica a exposição dos aspectos mais complexos do protagonista, ainda que eles consigam aparecer na interpretação de Gabriel Leone. Por mais que a caracterização ajude, é na atuação dele que os detalhes de Senna ganham força, inclusive na recriação de momentos conhecidos do piloto, como a aparição no Xou da Xuxa, a primeira vitória no GP do Brasil, a discussão pública com Piquet e o olhar de preocupação e tristeza naquele fim de semana trágico no circuito de Ímola. 

Embora a atuação de Leone jogue a série para a frente e seja difícil não se emocionar quando o Tema da Vitória, enfim, surge, “Senna” é uma produção certinha e segura demais para retratar alguém que gostava do risco de correr na chuva.