Durante a sessão de gala no Teatro Lumiére, “Sentimental Value” recebeu 19 minutos de aplausos, entrando numa seleta lista de recordes do Festival de Cannes, ficando apenas atrás de “O Labirinto do Fauno” que recebeu uma aclamação pública de 22 minutos em 2006. Se a longa minutagem pode soar um tanto exagerada ao novo filme do cineasta norueguês Joachim Trier – concorrendo pela terceira vez a Palma de Ouro – posso afirmar que será difícil passar ileso emocionalmente por ele, principalmente pelo belo drama familiar com toques cômicos, que caminha, delicadamente, pelos percalços dramáticos de uma história pessoal no âmbito familiar para dissertar sobre luto, solidão e reconexão com os vínculos do passado.

O filme acompanha o reencontro das irmãs Nora (Renate Reinsve, em atuação marcante) e Agnes Borg (Inga Ibsdotter Lilleaas) com o pai ausente, Gustav Borg (Stellan Skarsgård, cativante), um renomado diretor de cinema. Ele está trabalhando em um novo projeto e convida a jovem atriz americana Rachel Kemp (Elle Fanning), para o papel, situação que acaba por interferir na complexa dinâmica familiar.

“Sentimental Value” mostra Trier utilizando a arte (o filme dentro do filme) para personificar as inconstâncias afetivas dos Borg dentro da casa ancestral da família, que guarda várias gerações de sentimentos reprimidos e que se revelarão, pela câmera sempre delicada do cineasta, por meio das fissuras de seus alicerces interpessoais. O roteiro reflexivo de Trier escrito ao lado ao lado do parceiro habitual Eskil Vogt nos direciona pelas dores típicas geradas pelas ausências afetivas paternais para apresentar a trajetória de reconstrução dos laços afetivos de uma família, a partir do filme que o patriarca está rodando.

É raro assistir a um filme que constrói uma dramaturgia densa com momentos de humor descontraídos para dar agilidade aos ótimos diálogos, dando múltiplas facetas a história ao captar minuciosamente o lado amplamente humano dos personagens, que são capazes de errarem tanto quanto de acertarem nas suas decisões.

Frente a estes paradigmas, “Sentimental Value” é um filme cheio de energia que impressiona pela busca incessante em provocar tantas emoções e sensações que são ao mesmo tempo conflitantes e complementares frente as dúvidas de Nora. Elas, por sinal, refletem a própria solidão da personagem em lidar com seus relacionamentos amorosos e profissionais devido a relação turbulenta com o pai.

Gosto da forma que o filme vai virando a chave narrativa de maneira muito sensível e inteligente em relação ao melodrama familiar.

Curioso como Trier neste debate familiar faça uma moldura tão complexa do poder da arte, cuja inquietações produzidas pelo filme de Gustav dimensionam as arestas sentimentais destas filhas junto ao pai e deste com a morte da mãe (que se suicidou dentro da casa que serve de cenário no longa) para retratar as angústias de uma dinâmica sistêmica em constante desconforto com o seu lugar nas relações de mundo.

A postura de Nora frente a esta realidade é um belo olhar sobre como é difícil alguém amar sem piedade e que navegar nesta evasão emocional é o primeiro passo para tentar se reconciliar com a verdade sobre quem os pais realmente foram e a ficção dos personagens criadas pelo pai no filme serve de instrumento para ela também ressignificar suas memórias afetivas.

Com um elenco soberbo – Renate e Stellan brilham em cada momentos juntos – e a sequência final comovente da conversa entre as irmãs na cama enquanto leem o roteiro do pai – e que serve de reconexão com o passado distante sobre o amor que pais e filhos compartilham juntos – fazem de “Sentimental Value” um filme potente.

São nestes elementos da compreensão humana que Joachim Trier evidencia a beleza da expressão artística, que é falar sem falar, facilitando esse processo terapêutico autêntico como meio de cura e superação para solidão e depressão na esfera íntima. Um dos filmes mais bonitos deste Festival de Cannes.