Toda revolta começa bem antes da ação coletiva; ela é um acúmulo silencioso de sentimentos de insatisfação. Historicamente, a humanidade sempre teve ciclos de mobilizações sociais que refletem a realidade daquele momento específico. Nesse sentido, A Revolta pode ser relacionado com as manifestações de junho de 2013 no Brasil, não por trazer necessariamente as mesmas reivindicações, mas por provocar uma questão: o que transforma a insatisfação individual em ação coletiva? O tempo separa essas duas histórias, mas elas compartilham o mesmo cerne. O novo filme de Paul Greengrass transmite bem a atmosfera de caos e desolação, porém carece de um ápice emocional mais intenso.
Em uma Inglaterra do século XIV, destruída pela peste negra e guerras, a classe trabalhadora luta pela sua sobrevivência. O aumento dos impostos se tornou o estopim para uma rebelião dos camponeses contra o jovem rei Ricardo II em 1381. Com um caráter histórico, o longa retrata temáticas que ressoam na atualidade. A desigualdade social, a manipulação do poder, o povo contra a elite estão constantemente presentes na história humana. Essa aproximação com a realidade dá mais urgência e importância ao filme, tratando-o como um espelho contemporâneo e ratificando a agonia de problemáticas que permanecem se repetindo ao longo do tempo.
É nessa ferida exposta que a direção de Paul Greengrass adentra. A escalada do conflito é bem organizada e a ação é crua e violenta. A pobreza é opressora e selvagem, intensificando a brutalidade. A câmera tremida do diretor exalta um descontrole situacional e uma escalada da destruição da honra. Assim como outros trabalhos do diretor, ele sabe como construir um pandemônio. Infelizmente, Paul opera a força dramática no longa no piloto automático. Nos momentos mais humanos e íntimos, a conexão é distante dos personagens porque ele não tem uma individualidade.
Por outro lado, como uma obra ficcional, as liberdades criativas servem para simplificar os acontecimentos para deixar, deixando a trama mais palatável e cinematográfica. A abordagem das figuras históricas se adequa aos interesses do roteiro, a complexidade da história é minimizada, como os motivos da revolta e o contexto político da época. O encerramento da revolta ganha uma conclusão épica, numa batalha árdua pela liberdade e controle.
Aproveitando o recorte histórico, o roteiro toma uma decisão ousada de associar com a história de origem de um célebre personagem: Robin Hood. A ideia tinha potencial, era uma forma de brincar com um realismo fantástico e uma reviravolta inesperada, porém a execução é falha justamente pela construção pálida do protagonista. Comparando com outras encarnações do personagem, essa versão carece de imponência e escancara a sua natureza simbólica genérica, deixando-o bem mais sem personalidade.
No quesito de construção de época, A Revolta representa com perfeição a Inglaterra medieval pós-Peste Negra. A sujeira aparece como marcas de sofrimento e de indigência, demonstrando a desumanidade da vivência dos camponeses e da sua luta genuína por uma necessidade básica de existência. A fotografia soturna acompanha todo o ambiente de desesperança e de sufocamento, as paisagens naturais dão um respiro, exibindo um tom naturalista. As consequências da peste e as guerras são sentidas esteticamente, tanto nas cidades, campo e até na nobreza.
Entretanto, narrativamente, essas consequências soam mecânicas. O prólogo resume o contexto, sem dar tempo de mostrar a população passando pela peste e as guerras para dar mais impacto psicológico. O filme perde a oportunidade de deixar tudo mais visceral para a trama para que o público sinta todo o desespero dos camponeses. O início é comprimido para apressar a trama principal. O cotidiano é pouco explorado, dando a impressão que a revolta aconteceu num piscar de olhos, atrapalhando a fluidez natural da obra.
Essa abordagem influi diretamente nos personagens, que não apresentam profundidade. Mesmo com os esforços dramáticos do protagonista de Andrew Garfield, o protagonista não tem presença de cena. O ator interpreta bem o homem comum cansado da sua situação, traumatizado e vulnerável, mas o roteiro só quer transformar ele em um símbolo genérico do que um personagem mais interessante, com uma personalidade própria. Sua vida pessoal é mal desenvolvida, seu luto é superficial suas motivações simples demais com os coadjuvantes indo para o mesmo caminho.
Mesmo com uma perspectiva dramaticamente tímida e superficial, A Revolta entrega o que Paul Greengrass sabe fazer de melhor, um espetáculo de ação competente. A tentativa de tornar o longa uma prequel do Robin Hood é mais desajeitada do que efetiva. Toda a ambientação áspera e desconcertante ajuda o filme a manter firme sua mensagem de luta e sobrevivência em tempos difíceis utilizando a Revolta dos Camponeses de 1381 da Inglaterra Medieval para traçar um paralelo com a atualidade de que tem certas coisas que continuam imutáveis, apesar do tempo.
















