Em “Cão Sem Plumas“, João Cabral de Melo Neto vai à nascente do Rio Capibaribe para falar dos que vivem às suas margens. Então, para montar seu espetáculo a partir do poema, Deborah Colker saca sua companhia do Rio de Janeiro e embarca numa trip pernambucana.
Eles começam no interior, onde o rio surge, e seguem seu curso até o desague no mar, em Recife. No caminho, param de cidadezinha em cidadezinha, realizando oficinas com os moradores.
“Cão Sem Plumas“, o documentário de Camila Valença, registra esse processo. O que se espera ao embarcar na sessão é que o filme possa iluminar de alguma forma o processo criativo por trás da montagem do espetáculo. Isso ele faz: particularmente de interesse é a justaposição de dois diretores — Deborah Colker de um lado, dirigindo seus dançarinos, e Cláudio Assis de outro, dirigindo as imagens a serem usadas no espetáculo.
Sempre que o filme enfoca a condução dos dançarinos ou a elaboração da coreografia, sustenta nosso interesse — o modo como a postura corporal das pessoas que Colker encontra em sua jornada, postura moldada pelo trabalho e pela terra, informa os movimentos que sua companhia performa, por exemplo.
O problema mesmo é a própria figura de Colker, que não resiste a dar declarações pseudopoéticas sobre o processo. Claro, não surpreende ouvir suas platitudes sobre o “Povo”, já que é seu olhar estrangeiro, carioca, que norteia toda a projeção. Mas, de todo modo, seria mais interessante que seu trabalho pudesse falar ainda mais — e ela falasse um pouco menos.
Nada que comprometa. Comparado a outro título similar, “In-I In Motion”, exibido ano passado no mesmo Festival do Rio, “Cão Sem Plumas” tem uma vantagem significativa: com pouco mais de 70 minutos, é piedosamente curto.














