Uma biografia musical — seja em documentário, seja em ficção — serve para falar aos convertidos: a graça está em ouvir o que já se conhece, num bom sistema de som; a imagem é suplementar.

“Alucinação“, cuja espinha dorsal são as 10 faixas do álbum homônimo de Belchior, aqui tocadas em sequência, não se esquiva a essa limitação, ao mesmo tempo em que propõe algo diferente.

Aqui, Belchior fala por si próprio em registros de arquivo — fala eloquente, bem articulada, ornada pelo perfil aquino e os olhos cortantes —, e o que diz é ilustrado por outras imagens de arquivo mais. Assim, o filme nos poupa do cansado espetáculo das entrevistas com amigos e especialistas acerca do biografado, tão comum em hagiografias do tipo.

Mas talvez seja sintomático que o mais interessante do filme seja não a figura de Belchior, mas todo o mosaico setentista que o documentário constrói — há de ter sido uma laboriosa pesquisa de arquivo para encontrar essas imagens. 

Esse ímpeto colagista é o que permite aos realizadores sobrepor, em uma montagem sobre a contracultura cinematográfica brasileira (“sempre desobedecer, nunca reverenciar“, brada o bardo cearense), filmes tão díspares quanto “Copacabana Mon Amour” e “Dona Flor e Seus Dois Maridos“. Pode não fazer muito sentido histórico ou cinematográfico, mas, no contexto do documentário, faz sentido emocional.

A abordagem traz algum frescor ao filme, mas a pergunta, sempre insistente com esse tipo de produção, permanece: por que não ficar em casa ouvindo ao disco? Pode o filme nos fornecer qualquer coisa mais significativa além de um breve voo sobre o Brasil de 1976? Algum insight produtivo acerca da vida e obra do bigodudo que declarou certa feita fazer arte confrontacional, que sua alucinação é suportar o dia a dia?

“Alucinação” não é louco — é justo, competente, bem montado. Mas nenhum descrente sairá convertido — e, enquanto fã contumaz do errante Bob Dylan que sou, Belchior sempre me pareceu operar num espectro muito restrito como cosplay da fase sessentista do velho poeta. O filme confirmou minhas suspeitas: prefiro ouvir Belchior falar sobre suas músicas do que ouvir suas músicas.

E para os crentes: bom, vocês já sabem como a banda toca.