Existe uma ideia muito forte por trás de Copinha: para alguns jovens brasileiros, chegar ao futebol profissional não depende apenas de talento. Depende também de conseguir ser visto. É a partir dessa constatação que Joaquim Salles constrói seu primeiro longa-metragem, acompanhando o Esporte Clube Macapá em sua primeira participação na Copa São Paulo de Futebol Júnior. Mais do que registrar uma competição esportiva, o documentário olha para o abismo existente entre os grandes centros do futebol brasileiro e aqueles que permanecem às margens. 

O grande mérito do filme está justamente em não transformar essa história em uma simples narrativa de superação. Dayveson e Jeremias não são apresentados apenas como jovens talentos em busca de uma oportunidade. Aos poucos, o documentário revela as expectativas, inseguranças e contradições que acompanham essa tentativa de ascensão. A Copinha aparece como uma vitrine, sendo a oportunidade de jogar diante de olheiros, empresários e de um público muito maior, mas também um espaço em que as diferenças de investimento e estrutura ficam ainda mais evidentes. 

Essa perspectiva faz com que o futebol seja apenas a superfície de uma discussão maior. Salles utiliza o esporte para falar sobre desigualdade regional, religião, ambição e até sobre a maneira como as redes sociais passaram a participar da construção da imagem de jovens atletas. O sonho de ser jogador profissional deixa de ser apenas uma questão individual e passa a revelar um sistema no qual determinados corpos, sotaques e regiões precisam trabalhar muito mais para conquistar a mesma atenção. 

A abordagem documental contribui bastante para isso. Em vez de conduzir o espectador por meio de explicações constantes, o filme permite que situações, conversas e momentos cotidianos revelem aos poucos quem são os jovens acompanhados pela câmera. Essa escolha aproxima o público da realidade dos atletas sem transformar suas experiências em uma história excessivamente construída. Há momentos em que o que importa não é necessariamente o resultado de uma partida, mas aquilo que acontece ao redor dela. 

Ao mesmo tempo, essa escolha também pode ser uma de suas limitações. Em alguns momentos, a observação parece mais interessada em registrar do que em aprofundar determinadas questões. O filme apresenta temas muito ricos, especialmente a desigualdade entre o futebol do Norte e os grandes centros do país, mas nem sempre consegue explorar todas as possibilidades que eles oferecem. A distância entre intenção e aprofundamento faz com que algumas discussões pareçam passar rapidamente pela tela. 

Isso é particularmente perceptível porque o próprio ponto de partida de Copinha é extremamente potente. A primeira participação do Esporte Clube Macapá em uma competição de alcance nacional já carrega uma dimensão histórica e simbólica importante. O clube chega a São Paulo carregando não apenas seus jogadores, mas também a representação de um futebol que costuma receber pouca atenção. O documentário poderia, em determinados momentos, mergulhar ainda mais nas razões estruturais dessa invisibilidade. 

Ainda assim, há algo bastante interessante na maneira como Joaquim Salles evita reduzir os atletas a símbolos de uma realidade social. O filme não fala apenas sobre o futebol do Amapá; ele acompanha pessoas concretas tentando encontrar um espaço dentro dele. O filme compreende que, por trás do espetáculo esportivo, existe uma quantidade enorme de jovens tentando transformar uma possibilidade em profissão. 

Visualmente, o longa também se beneficia dessa abordagem mais naturalista. A fotografia de Luan Dias, combinada à montagem de Diogo Ekizian e ao trabalho de som, ajuda a manter a sensação de proximidade com os acontecimentos. Os elementos técnicos não procuram disputar espaço com os atletas, mas contribuem para construir uma experiência que mantém o foco em suas trajetórias. 

No fim, Copinha funciona melhor quando abandona a expectativa de contar uma grande história de vitória e se concentra naquilo que existe antes dela: a espera, a tentativa, o desejo de reconhecimento e a possibilidade, nem sempre concretizada, de mudar de vida. É um filme sobre futebol, mas também sobre quem tem o direito de sonhar com ele e sobre quais pessoas precisam lutar para serem enxergadas. 

Seu maior mérito é fazer com que a Copinha deixe de parecer apenas um torneio de futebol. Nas mãos de Salles, ela se transforma em um retrato de um país onde talento existe em todos os lugares, mas oportunidade e visibilidade continuam sendo distribuídas de maneira bastante desigual.