Lá pelas tantas, MC Sabrina (Duda Santos), já com relativo sucesso, diz para o seu empresário que vai fazer o mundo respeitar a favela. Ele rebate: mas o que mais tem no mundo é gente rebolando a bunda por aí, ora.
“Funk” toma o partido de Sabrina, mas o ponto é válido: como exatamente Sabrina pretende fazer o mundo respeitar a favela? Como letrista, ela não é particularmente inspirada, preferindo palavras terminadas em “o” e “a” que possam, mesmo que imperfeitamente, rimar com “piroca” (“coça”, “roça-roça”, “gostosa” etc).
Tampouco parece ter um gosto dos mais interessantes na hora de escolher seus beats. Um ponto de conflito do filme é a derrocada de Sabrina para o pop palatável, mas, desde o início da projeção, não havia nada de singular nos beats que ela vinha usando até então.
E até mesmo no quesito putaria estridente e escandalosa ela perde para uma MC Carol da vida: Sabrina não é nem chocante, nem carismática o bastante para se destacar da multidão. Enfim, é tudo um pouco genérico, até mesmo o título — “Funk“, pura e simplesmente.
Do Rio de Janeiro, Aly Muritiba, aqui trabalhando ao lado de Tathiane Almeida, depreende apenas o palavrão e a bunda de fora. Os dois usam todos os marcadores que você espera de um projeto como esse: as marquinhas de bronze, o cabelo nevado, os fuzis dos traficantes. Mas nada disso é articulado de forma minimamente produtiva ou original.
Talvez seja esse o preço a se pagar por ser um cineasta de estilo maleável e interesses dos mais variados, como é o caso de Muritiba. Para ficar apenas em seus projetos mais recentes, ele já experimentou com um drama sobre desejo reprimido (“Deserto Particular“), um suspense detetivesco dos mais convencionais (“Barba Ensopada de Sangue“) e agora este “Funk“, que segue a igualmente convencional estrutura da artista aspirante que chega ao estrelato apenas para descobrir que deve recuperar as raízes. Já vimos isso antes, e melhor.
“Funk“, com suas luzes neon, seu step printing (quando se reduz o número de frames por segundo para um efeito quebradiço, etéreo) e seu slow motion, parece querer deixar-nos inebriados, mas há muito pouco a ser desfrutado aqui. Não ajuda que a Sabrina de Duda Santos seja uma criatura das mais irritantes, toda frases de efeitos e gritaria.
E como exatamente deveríamos encarar a obsessão por sexo que permeia seu funk proibidão? Nós a vemos transando aqui e ali, mas, para alguém que se autointitula a “rainha da putaria”, não parece haver nada de inovador no que faz no sexo (a não ser que se tome a bissexualidade como uma inovação). O que ela tira disso, além de um breve pico de endorfina puramente transacional?
“Funk” sugere uma via psicologizante: sua mãe, ex-MC, foi e segue sendo adepta da mesma carnalidade que a filha. O peso dos pais é uma constante no cinema de Muritiba, e os únicos momentos de breve interesse em “Funk” decorrem da relação entre mãe e filha. Mas mesmo essa faceta parece vaga demais.
Em dado momento, “Se Tá Solteira“, hit do FBC, pipoca na trilha sonora. O contraste às canções de Sabrina é gritante: o MC mineiro trata o tesão como algo divertido, leve — enfim, gostoso. Já Sabrina, apesar de sua insistência em mencionar pirocas e xerecas molhadas, faz o sexo parecer algo amargo, ríspido, impositivo.
Ou seja, é tudo tão prazeroso quanto marchar ao som de cantigas militares — e sem prazer, não há funk que preste.















