O cinema hollywoodiano gosta de explorar o terrorista externo, muitas vezes retratando-o como o vilão estereotipado em vários filmes. Mas e quanto ao terrorista interno, essa figura que conhece os Estados Unidos e quer destruir o país por dentro? Sobre ele, temos bem menos filmes, e os poucos que são feitos geralmente não alcançam boa bilheteria ou repercussão. Parece que, apesar de algumas raras exceções, cineastas temem explorar esse tema e examinar algo podre dentro do coração dos EUA. E, infelizmente, não é com Unabomber, produção da Netflix, que essa escrita vai mudar.
Ted Kaczinski é uma figura ideal para se criar uma narrativa cheia de drama e tensão: a história real dele fala sobre doença mental, isolamento, ódio contra o sistema e, no fim das contas, a quase que completa incapacidade das instituições em pegá-lo. Para quem não sabe, ele ficou conhecido como Unabomber, um terrorista/assassino em série que enviava cartas-bombas para pessoas e instituições como universidades e empresas aéreas. Matou algumas pessoas, feriu outras dezenas, e por quase 20 anos, foi alvo da maior caçada que o FBI, a polícia federal americana, promoveu, do final dos anos 1970 até a década de 1990.
Existem documentários sobre o Unabomber – um deles até disponível na Netflix – e ao menos uma boa minissérie dramática, Manhunt: Unabomber (2018), que atualmente está disponível no streaming Lions Gate. Ou seja, é uma história que já foi contada e recontada, e ainda é razoavelmente conhecida. O filme Unabomber, sejamos justos, até tenta encontrar um enfoque novo, mas o trabalha de forma tão canhestra que acaba reduzindo a história e contando-a de forma enfadonha e sem drama.
O filme se alterna entre duas linhas narrativas: a primeira mostra a juventude de Ted Kaczinski – vivido por Jacob Tremblay, o garotinho de O Quarto de Jack (2015), agora crescido – quando ele foi aceito em Harvard por ser um prodígio da matemática, apesar do seu comportamento antissocial. Ele embarca numa experiência psicológica conduzida pelo eminente professor Henry Murray (Russell Crowe).
E a outra linha narrativa se passa nos anos 1990, mostrando a caçada ao terrorista e centrada na agente do FBI Joanne Miller (Shailene Woodley). Essa parte aqui já é muito problemática, pois o roteiro cai em vários clichês dramáticos: a policial é a única que acredita que o Unabomber é inteligente e sofisticado; ela luta contra seus superiores; e não se dá bem com o parceiro machista. E tudo é filmado de um jeito pedestre pelo diretor Janus Metz, sem imaginação, como se estivéssemos vendo um seriado policial padrão. São muitas cenas de conversa, filmadas em estúdios artificiais, e falta a tensão que esse segmento da trama exige.
Outra coisa que vale a pena ressaltar é que a personagem de Shailene Woodley não existiu no caso real, e é uma invenção dramática do filme – quem assistiu Manhunt: Unabomber ficou com uma versão bem mais fiel da história verídica. Isso em si não deveria ser um problema tão grande, mas fica a pergunta: por que os cineastas aqui sentiram que precisaram mexer com os fatos, se o resultado acaba sendo tão sem vida? Foi para tentar enxertar um subtexto feminista na história? Se foi, a execução deixou a desejar.
Já quanto às cenas ambientadas em Harvard, apesar dos esforços de Tremblay e Crowe, que fazem bem o que é pedido deles, elas também não funcionam. Fica a impressão de uma tentativa de “compreender” o psicopata. Mas o filme praticamente não mostra o Kaczinski adulto e terrorista, então não há uma ligação tangível e emocional entre o jovem passando por experiências sádicas nas mãos dos psicólogos, e o assassino que ele viria a se tornar. Essas cenas não estabelecem de fato uma ligação com o presente, e ao tentar explicar o personagem sem de fato se aprofundar nisso, o resultado acaba sendo raso.
O Unabomber da vida real é uma figura sobre a qual até hoje pairam alguns mistérios – algumas passagens da sua vida permanecem mal explicadas ou documentadas. No fim das contas, Unabomber, o filme, falha em tentar preencher essas lacunas, e ao mexer nos fatos reais, arrisca desagradar também os fãs de produções true-crime que hoje proliferam nos streamings, principalmente da Netflix. Nesse caso, melhor assistir mesmo um documentário: a trajetória daquele que talvez seja o maior terrorista doméstico da História norte-americana acaba rendendo apenas mais um filme da semana, uma aquisição de catálogo da Netflix.
















