Em 1811, Jane Austen teve seu primeiro livro publicado, no qual trazia as desventuras amorosas das irmãs Elinor e Marianne Dashwood, filhas do segundo casamento de Mr. Dashwood. Parte de seus infortúnios vinham justamente da condição de dependência feminina na Inglaterra Georgiana. Austen toma sua narrativa para tecer críticas sociais a essa visão, algo que pode ser notado na adaptação de Georgia Oakley (Blue Jean), protagonizada por Daisy Edgar-Jones (Normal People) e Esmé Creed-Miles (Sandman).
“Razão e Sensibilidade” se pauta na relação entre as duas irmãs Dashwood e como ambas lidam de forma diferente com a vida e seus sentimentos, espelhando uma a outra. É importante lembrarmos que o espelho revela nosso oposto, um reflexo e não aquilo que realmente somos e é isso que acontece entre Elinor (Edgar-Jones) e Marianne (Creed-Miles). Enquanto a irmã mais velha é racional, contida e age de acordo com aquilo que a sociedade espera das mulheres, Marianne parece um furacão. Ela é sensível, impetuosa e muito ligada a natureza; mais um contraponto que o roteiro de Diana Reid apresenta, já que Elinor é caseira e ancorada ao espaço destinado a domesticidade.
Essa característica se revela na relação entre as mulheres Dashwood, a mãe e as três filhas, e o espaço que frequentam. O trajeto delas entre Norland, Barton e Londres evidencia a dependência e a condição feminina no século XIX; o roteiro traz dinâmicas das regras aristocratas e sociais que geram um sentimento que vai do incômodo até o divertimento diante do encapsulamento a que eram acometidas as mulheres. Neste aspecto, é interessante como o espaço é um fator determinante para o estado de espírito em que as protagonistas se encontram e também para mostrar como a sociedade era dura com mulheres sem uma figura masculina direta.
Em determinado momento, Margareth (Bodhi Rae Breathnach), a Dashwood mais nova, afirma que só se casará com um homem que possa dar a ela uma casa e dinheiro, coisas que não possui. O diálogo revela a importância de um teto para chamar de seu – como diria Virginia Wolf – na Inglaterra de Austen e me chama atenção como o filme consegue trabalhar essa questão alinhando a vivência das irmãs. É importante dizer como a casa, dentro da literatura inglesa, ultrapassa a arquitetura, incidindo num viés psicológico das personagens, sendo um espelho da divisão social e de classes que estrutura uma sociedade que ainda hoje é regida por uma monarquia. Sair de Norland, casa ancestral de Dashwood, para um casebre distante em Barton, escancara de forma sutil a situação financeira e social a qual o clã se encontra.
Posteriormente, quando as irmãs se lançam a Londres, onde seus amados estão, temos um outro momento de construção espacial e íntima de nossas protagonistas. A cidade grande desperta a curiosidade, mas também joga sobre elas a realidade de seus relacionamentos. Se um homem não te escreve ou então diz que vai ficar 12 meses sem te visitar, será que ele realmente está interessado em você? Se a mudança para Barton faz um chá revelação de sua condição social, Londres revela o real estado de suas paixões. O centro urbano inglês é desconhecido e inóspito para as irmãs, tal qual o que há de concretude com Edward (George MacKay) e Willoughby (Frank Dillane), e é ao lidar com a frustração que o comportamento em contraste das duas irmãs aflora.
A fotografia de Arnaud Potier nos colocou em um grau de intimidade com as duas irmãs. Os planos detalhes sobre o rosto selvagem de Marianne e a câmera que se aproxima dos personagens, como se estivéssemos nos juntando ao grupo, nos faz olhar para a briga entre elas e ver claramente a dor da quebra da ilusão e como precisam encontrar-se uma na outra para entender que o equilíbrio é o fundamental. Mas há outro ponto que se destaca: a interpretação. Edgar-Jones é especialista em dizer pouco em palavras e muito com o olhar, o corpo e o silêncio, enquanto Esmé Creed-Miles empresta uma beleza trágica para sua personagem, seus rompantes, contudo, soam um tanto artificiais e fora do tom, como se fosse uma adolescente chata.
A trilha sonora e o figurino são outros dois elementos que ajudam a dar um tom moderno e ao mesmo tempo naturalista para “Razão e Sensibilidade“. Como fruto de uma obra literária, é interessante o quanto há do universo de Jane Austen nesta versão. É possível notar os paralelos com “Emma” e “Orgulho e Preconceito”, dois clássicos de Austen e que trazem discussões semelhantes como condição feminina, habitação e identidade. A trilha e o figurino, contudo, criam uma atmosfera menos rígida diante da exclusão discutida pela narrativa. Enquanto a primeira capta os sentimentos que permeiam as personagens, a segunda retira os vestidos detalhados e espartilhados, uniformes militares, chapéus extravagantes típicos da Inglaterra Georgiana, para dar espaço a um armário com peças mais folgadas, sujas do dia a dia e que dialogam melhor com uma proposta de modernidade. Bem diferente do “O Morro dos Ventos Uivantes” de Emerald Fennel.
“Razão e Sensibilidade” se junta ao grupo de outras produções que buscam adaptar obras escritas por mulheres do século XIX ou que emulam a vida nesse período, cumprindo com êxito e de forma delicada e apaixonante seu ingresso ao lado de “Adoráveis Mulheres“, de Greta Gerwig, e “Morro dos Ventos Uivantes“, de Andrea Arnold. É realmente uma pena que a cena de dança não tenha sido tão cuidadosa e moderna quanto as de “Bridgerton”, mas não tira o mérito do trabalho de Georgia Oakley e seu time. Não há nada mais poético do que ver uma mulher conquistando seu espaço e o seu amor.
















