Bridgerton retornou para sua quarta temporada, adaptando a história de amor do segundo filho de Violet Bridgerton (Ruth Gemmell): Benedict (Luke Thompson). O desenvolvimento romântico do rapaz bebe de um arco narrativo clássico, o conto da Cinderela, o qual vai alimentar toda essa temporada com a discussão em torno das diferenças de classe e de como, na era georgiana/vitoriana, esse tipo de relacionamento pode se fundamentar. Preciso dizer, no entanto, que as escolhas feitas nessa temporada me geram incômodos que se alojam desde mudanças no comportamento de Benedict, passando por questões técnicas como a direção e também o arco dos personagens secundários.
Benedict assume as funções de Anthony (Jonathan Bailey) enquanto o mesmo segue na Índia com sua família; enquanto isso, Violet volta suas atenções para encontrar um par para ele e Eloise (Claudia Jessie), após ter tido sucesso com Colin (Luke Newton) e Francesca (Hannah Dodd) na terceira temporada. Os dois, no entanto, parecem avessos ao casamento, até que Benedict conhece uma dama prateada durante o baile de máscaras de sua mãe e se encanta por ela. A busca pela moça misteriosa enfraquece conforme ele se apaixona pela dama de companhia de suas irmãs, Sophie Baek (Yerin Ha).
O novo conto da Cinderela
Quero começar falando sobre o casal principal. A Sophie Baek que temos na série é diferente daquela que encontramos em O Perfeito Cavalheiro, de Julia Quinn. Yerin nos entrega uma Sophie mais introspectiva e intelectual; ela sofre calada e busca sair de seus problemas de maneira muito solitária, ao mesmo tempo em que é uma personagem decidida — a não ser quando o tópico é Benedict — e empática com os que estão ao seu redor. Gosto dessas camadas dadas a ela, porque já lançam os fundamentos de sua proximidade com as irmãs Bridgerton. Uma pena que a admiração que a personagem tinha por Lady Whistledown e o papel de Penelope (Nicola Coughlan) em sua história tenham sido apagados.
Por outro lado, olho para essa moça e para o romance com Benedict e sinto dificuldade de embarcar nele por completo. Primeiro, Benedict é o irmão Bridgerton que mais teve relacionamentos ao longo da série, e nenhum deles com jovens debutantes ou mulheres que não conhecem a malícia de se envolver com um homem que quer um caso de apenas uma noite. Prova disso é que ele começa a temporada se relacionando com mais de uma pessoa ao mesmo tempo e dizendo à mãe o quanto as jovens garotas da sociedade não conseguem prender sua atenção por comportamentos tolos. Então, o que o leva a Sophie? O fã mais inspirado pode dizer que é o fato de ela não se render a ele na conversa que trocam no jardim de Violet. Direi a esse fã que, antes desse momento, Benedict a vê observar o lustre encantada, como qualquer jovem tola que ele critica, e é justamente isso que o magnetiza. Mas não era ele que julgava justamente esse comportamento cinco minutos antes?
Difícil defender quando você acompanha esse personagem desde quando Simon e Daphne estavam se cortejando, mas esse momento desperta em mim outro incômodo em relação às cenas de maior aglomeração do elenco nesta temporada: a direção bagunçada.
Trama inchada
Tanto o baile oferecido na casa Bridgerton quanto o oferecido por Lady Penwood (Jessica Madsen) sofrem de uma má distribuição das pessoas que estão em cena. Percebam que, no baile em que Colin morre de ciúmes de Penelope com Debling, a câmera se movimenta sempre colocando-os no centro tanto do drama quanto da imagem; isso não acontece aqui. Temos tantos plots acontecendo que o salão de baile se torna um pano de fundo para as histórias que estão sendo contadas. O público não consegue apreciar, por exemplo, a fantasia dos irmãos Bridgerton, porque a cena precisa ser cortada para mostrar a família Penwood; a mesma precisa ser cortada rapidamente para mostrar Benedict fugindo das debutantes, que precisa ser cortada para mostrar Violet e Marcus Anderson. Percebam que há muita coisa acontecendo, e o roteiro e a direção não conseguem surfar para dar conta de tudo. Não conseguem se aprofundar nessas narrativas, deixando personagens importantes orbitando pela falta de espaço em tela e de histórias consistentes.
Curiosamente, os únicos momentos que não sofrem desse problema de aceleração são o recital de Hyacinth (Florence Hunt) e a despedida escocesa de John (Victor Alli), e o motivo é que as tramas ali desenvolvidas focam apenas no que está acontecendo: Hyacinth e Gregory (Will Tilston) treinando para quando debutarem, e Francesca e Michaela (Masali Baduza) lidando com o luto.
A sensação que tenho é que a quarta temporada inchou com tantas narrativas, escolhendo aumentar algumas e negligenciar aquelas que eram tão admiradas pelos fãs. E quem mais sofre com isso é o casal principal. Além de a direção se perder nesse mar, a história vendida se apoia numa ilusão que não se sustenta.
Divisão de classes e um retrato do patriarcado
A primeira parte da temporada se fundamenta em discutir como a divisão de classes é o grande conflito presente. Essa discussão é aprofundada na segunda parte, mas ela se apoia em olhar exclusivamente para o lado masculino da equação e em entender que o peso é sempre mais denso para ele, que nasceu em uma família rica e foi sempre privilegiado, e não para ela, que teve que lidar com a bastardia e servir de empregada à sua madrasta. É curioso porque, no mundo real, sabemos que quem mais sofre pelas escolhas sociais são as mulheres, e a Shondaland quer nos convencer de que quem sofrerá é o homem branco, cis, bissexual e rico.
Por um lado, é compreensível: Benedict sempre viveu naquele meio e, para viver sua história de amor em plenitude, teria que estar longe de sua família, no campo, e ver seus filhos não crescerem em meio ao amoroso lar da casa Bridgerton, como Edmund e Elliot já experimentam. Por outro lado, penso em como tudo isso é muito mais penoso para Sophie, que viveu toda a sua existência renegada por ser fruto de uma relação não aceita socialmente.
Nesse ponto, surge outro questionamento: o fato de Sophie possuir uma educação diferente de todas as outras empregadas, algo que é nítido no seu relacionamento com Eloise e nas correções que faz do francês de seu interesse romântico — claro que isso foi um aceno para o fato de Thompson ser fluente no idioma. Meu questionamento é: essa qualificação a torna mais merecedora de um relacionamento do que as outras mulheres da sua classe social?
Acompanhem comigo: ela ainda vai viver numa casa em que aqueles que eram seus companheiros de trabalho agora a servem. Honestamente, penso que essas questões relacionais são conflitos mais interessantes e curiosos do que os que rondam Benedict e, mais ainda, tornam o peso social mais denso para o seu lado da balança do que para o irmão de Colin. Algo que está nas entrelinhas do que é imposto pelo roteirista desta temporada.
Mondriches versus Whistledown
Outros dois itens que também vejo como incômodos são o espaço dado aos Mondrich e o destino de Lady Whistledown. A cada temporada, Alice e seu marido ganham mais arcos e narrativas que deveriam ser de outros irmãos Bridgerton, além de literalmente sequestrarem a história de outros personagens, como acontece aqui com Alice ocupando o lugar de Agatha junto à rainha. A impressão que tenho é que a história deles é claramente uma cópia do que deveria ser Polin. Primeiro, os conselhos que Benedict pede a Mondrich são ditos por seu irmão Colin em O Perfeito Cavalheiro; segundo, Alice nunca demonstrou interesse em fofoca, e agora, quando Penelope decide se aposentar, ela vira os olhos da Rainha e conta fanfics para que Charlotte se entregue e embarque em suas narrativas.
Devo lembrar que é Penelope quem percebe, em O Perfeito Cavalheiro, que há uma ligação entre Sophie e a Dama de Prata, o que me força, mais uma vez, a ter que ver esse casal — que tinha plot apenas no núcleo de Simon Basset — roubar literalmente a história de Colin e Penelope, fora o fato de que fuxicam nos cantos dos bailes como o casal vivido por Newton e Coughlan já fez em temporadas anteriores. É triste ver um casal tão querido pelo público — devo lembrar que a terceira temporada é a de maior alcance dessa saga na Netflix — ser substituído gradualmente. Não vou dar spoilers, mas sinto que esse meu incômodo será agravado quando chegarmos à temporada de Hyacinth. E sinto que Alice tem ligação direta com o destino de Whistledown, mas vamos deixar essa discussão para o futuro.
Já que toquei no destino de Whistledown, preciso dizer que a série Bridgerton se construiu em torno dos discursos da “Leo Dias” da Regência, e dissociá-la de Penelope é meio cruel, pelo mesmo motivo que trazer o conflito de classe para ter mais peso sobre Benedict do que sobre Sophie é patriarcal. Penelope rompeu com Eloise por Whistledown e quase perdeu seu casamento com o amor de sua vida para manter o seu trabalho. É justo que alguém tome para si aquilo que ela construiu? Não. E acho que a série faz um desserviço ao tentar tirar a personagem e seu clã de circulação mais à frente. Triste, considerando que Colin e Penelope estão presentes em todas as histórias que Julia Quinn escreveu sobre os filhos de Edmund e Violet.
A quarta temporada de Bridgerton sofre de problemas enraizados nas escolhas para essa narrativa, tanto aquelas que se mantêm do livro quanto aquelas que decidem alterar o que já vinha sendo construído. Ainda assim, é bonito e imersivo o ambiente do último período da Inglaterra georgiana. E acho que essa beleza e química Benedict e Sophie conseguem entregar, ainda que tentem nos convencer de que as escolhas são mais difíceis para ele, que é quem realmente tem o direito de escolher.
















