Francis Ford Coppola sempre gostou de uma ópera. Vários dos seus filmes possuem tom operático com histórias e momentos grandiosos, e a grandiloquência às vezes até domina o diretor, como visto em Megalópolis (2024). E vendo hoje, é curioso como alguns dos temas – e grandiosidade – de Megalópolis aparecem 30 anos antes em Drácula de Bram Stoker (1992), a sua adaptação para um dos romances mais influentes do século XIX, a obra do autor irlandês que consolidou o mito do vampiro na imaginação mundial.
Mas Drácula de Bram Stoker é um pouco diferente: trata-se de uma ópera gótica com toques de carnaval, um filme barroco e inventivo que propõe uma ressignificação do mito do vampiro por meio do próprio cinema. Para Coppola, o livro e o cinema foram contemporâneos, e foi a sétima arte que pegou as ideias da obra de Stoker e as disseminou na cultura popular. Afinal, Drácula é o personagem literário mais adaptado da história do cinema, junto com o Sherlock Holmes.
O filme nasceu como projeto comercial para Coppola, mas ele conseguiu incluir sua sensibilidade artística. A atriz Winona Ryder ficou com remorso por ter deixado o diretor na mão nas filmagens de O Poderoso Chefão: Parte III (1990) – ela faria o papel de Mary Corleone, mas por problema de saúde, caiu fora da produção em cima da hora e o papel acabou com Sofia Coppola. Por isso, foi ela quem trouxe ao cineasta o livro e o roteiro de James V. Hart. Curiosamente, de todas as versões de Drácula do cinema, essa é a mais próxima do livro e consegue incluir quase todas as suas passagens. Mas há duas modificações importantes.
Primeiro, a história de amor. No livro, Drácula é o mal encarnado; no filme, Coppola, pegando emprestado de décadas de filmes mostrando o vampiro como figura sedutora e sexy, torna o seu monstro uma figura atormentada por um amor que perdeu. No início, conhecemos Vlad Dracul (vivido por Gary Oldman), guerreiro romeno que perde sua amada e, por consequência, renega a Deus e se torna o vampiro. Séculos depois, o conde Drácula descobre que seu amor retornou na figura de Mina Harker (Ryder). Ele então parte para Londres para encontrá-la, levando consigo o seu mal, e deixando o noivo dela, Jonathan (Keanu Reeves), como prisioneiro em seu castelo. Depois de cobiçar o pescocinho dele, claro.
Como história de amor trágica, Drácula de Bram Stoker funciona, principalmente pela atuação monstruosa – em mais de um sentido – de Oldman, e pela sexualidade que o cineasta introduz na experiência. Coppola pega toda a sensualidade latente do vampiro de capa preta adentrando o quarto de uma vítima indefesa e a leva para o próximo nível. Toda a sedução de Lucy (Sadie Frost), até sua transformação numa criatura da noite, é sensual, como um sonho erótico, e o filme também extrai força das noivas de Drácula – entre elas está uma jovem Monica Bellucci, numa aparição de tirar o fôlego.
E o outro aspecto é o da ligação entre o vampiro e o cinema. Quando o rejuvenescido conde chega em Londres, ele logo se depara com o cinematógrafo, que assiste acompanhado com Mina. A câmera e o filme que captavam um pedaço da realidade eram novidade naquele final de século XIX, mas Coppola explora essa conexão por todo o filme, praticamente, ao decidir realizar todos os efeitos visuais com truques de câmera, muitos deles já usados na época do cinema mudo. Quando Jonathan viaja à Romênia, ele vai num trem que é uma óbvia miniatura. A sombra de Drácula tem vida própria. Vemos fusões e objetos se movimentando ao contrário, como uma gota de absinto que cai para cima quando a garrafa da bebida é aberta. Não tem nada de computação gráfica aqui – até porque ela ainda estava nascendo – e o resultado é um filme de visual único que ainda hoje parece rico, charmoso e sedutor.
Detalhes como o figurino, especialmente do vampiro – a figurinista Eiko Ishioka foi responsável por um dos três Oscars que o longa recebeu – e os cenários, e até algumas das atuações – a canastrice de Reeves, o cantor Tom Waits totalmente louco como Renfield, e o Van Helsing bizarro e divertidíssimo de Anthony Hopkins – contribuem para o aspecto operático, e por que não, carnavalesco da obra. É um filme que não tem medo de se entregar ao ridículo em alguns momentos, de nos fazer rir após uma cena sangrenta ou assustadora.
Essas são características que Drácula compartilha com Megalópolis: além do visual grandioso: a disposição para o ridículo, o romance que domina a narrativa, os efeitos criativos. Mas acima de tudo, são dois filmes que compartilham uma preocupação com o tempo, sua passagem e os efeitos que ele provoca nas emoções humanas.
É interessante notar que filme chegou numa época – o começo dos anos 1990 – na qual Hollywood não estava mais muito interessada no gênero terror, ainda mais de grande orçamento. A indústria ainda vivia a ressaca da década de 1980 com suas franquias intermináveis que foram perdendo o gás, e o próprio público não parecia lá muito ansioso por mais um Drácula. Ainda assim, o carnaval de Francis Ford Coppola agradou, tornando-se um grande sucesso que iniciou uma breve onda de adaptações de obras góticas da literatura de terror para o cinema, com astros e visual de superprodução – no rastro vieram Frankenstein de Mary Shelley (1994) e Lobo (1994), visão contemporânea do mito do lobisomem.
Mas hoje, Drácula de Bram Stoker é mesmo o mais lembrado destes e o que mais deixou sua marca na cultura pop. O filme de Coppola envelheceu bem, e hoje até suas imperfeições adicionam ao espetáculo de horror, sangue e sexo construído pelo diretor. É um lembrete de que um cinema do tipo comercial pode ser artístico e um marco na carreira de um cineasta para o qual nunca faltou ambição. Coppola sempre pensou grande e só faltavam mesmo algumas canções para que seu filme de vampiro virasse uma ópera de fato, sangrenta e maluca.
















