Enfrentar o oceano sozinho durante 100 dias exige muito mais do que coragem, e é justamente nessa experiência que 100 Dias, novo filme de Carlos Saldanha, foca. Inspirado na travessia do Atlântico Sul realizada por Amyr Klink em 1984, o longa acompanha uma jornada que envolve não apenas a resistência física, mas também a capacidade de lidar com o isolamento e com as próprias limitações. Embora tenha uma história naturalmente envolvente em mãos, o filme falha as vezes em conseguir transformar a dimensão dessa conquista em uma experiência igualmente marcante para o espectador.
Visualmente, porém, há muito o que admirar. A fotografia de Rodrigo Monte explora a imensidão do oceano e o contraste com a pequena embarcação de Amyr, reforçando a vulnerabilidade do navegador diante de uma natureza que não pode controlar. Os encontros com animais marinhos também rendem alguns dos momentos mais bonitos do longa, que encontra no mar uma fonte constante de fascínio e ameaça. O problema é que, conforme os dias passam, a repetição das situações começa a pesar. A montagem nem sempre consegue manter o ritmo da narrativa, e os obstáculos enfrentados pelo protagonista perdem parte da força quando apresentados de maneira tão semelhante. A sensação de isolamento, fundamental para a história, acaba tornando algumas passagens mais arrastadas do que deveriam ser.
Filipe Bragança, por sua vez, constrói um Amyr Klink convincente, especialmente nos momentos em que o desgaste da viagem aparece em pequenos gestos e mudanças de comportamento. Sua atuação não é exagerada e combina com a proposta de acompanhar um homem que precisa lidar com tudo o que sente sem ter ninguém por perto para compartilhar suas angústias. Ainda assim, o roteiro de Elena Soárez e Thais Tavares se mostra mais disposto em explicar as motivações do navegador do que em explorar suas contradições, o que em minha opinião, seria mais benéfico. A relação com o pai, Jamil, interpretado por Felipe Camargo, ganha bastante espaço na narrativa, mas não é bem desenvolvida com a profundidade necessária para justificar o peso que assume na trajetória do protagonista.
Essa escolha particularmente me frustrou porque a própria travessia oferece possibilidades dramáticas que vão muito além dos conflitos familiares. O que acontece com alguém que passa meses sem conversar com outra pessoa? Como a ausência de referências cotidianas modifica a percepção do tempo? E até que ponto a determinação de concluir uma jornada pode se confundir com a dificuldade de reconhecer os próprios limites? São questões que poderiam tornar a experiência de Amyr ainda mais interessante, mas que o filme aborda sem se aprofundar muito nelas.
Nesse sentido, o desenho de som também poderia ser mais explorado. O barulho das ondas, do vento e da embarcação tem potencial para traduzir a experiência de estar sozinho em mar aberto, enquanto os momentos de silêncio poderiam revelar algo sobre o estado emocional do personagem. Em vez disso, o filme frequentemente parece confiar na dimensão visual da viagem para transmitir sentimentos que mereciam uma construção mais cuidadosa.
Por fim, 100 Dias tem uma história extraordinária e imagens que ajudam a dimensionar o tamanho da façanha de Amyr Klink, mas existe uma distância entre mostrar a dificuldade de uma jornada e fazer o espectador sentir o peso dela. Carlos Saldanha demonstra habilidade ao construir esse universo visual, embora encontre dificuldades para dar o mesmo destaque aos conflitos humanos que sustentam a narrativa. O resultado é um filme que impressiona pela grandiosidade da travessia, mas que poderia ir além da conquista em si para investigar o que torna essa experiência tão transformadora. Afinal, atravessar um oceano sozinho é um feito imenso, mas compreender o que acontece com alguém durante esse percurso talvez seja a parte mais interessante dessa história.















