A Terapia Certa, nova produção argentina com o astro Ricardo Darín lançada na Netflix, pode ser descrito como um curioso experimento: tecnicamente, é uma comédia, mas se o espectador prestar atenção, não são tantos os momentos de riso; e é também um suspense, mas nunca chega a provocar muita tensão. O filme é o novo trabalho do diretor Hernán Goldfrid, o mesmo que fez o igualmente curioso Tese Sobre um Homicídio (2013), também com Darín, e de novo é um longa que se equilibra num estranho meio-termo.

Na história, Darín interpreta Ulises Verón, um psicólogo sem papas na língua e nenhuma mínima mais para dar. Logo no início, o conhecemos durante um discurso numa universidade, onde ele afirma que a Argentina concentra o maior número de psiquiatras e psicólogos do mundo. Para ele, isso é indicativo da doença da sociedade. Ele tem um quadro em um programa de variedades de TV, no qual ele diz, sem suavidades, o que devem fazer os telespectadores que mandam seus problemas emocionais para serem lidos ao vivo. 

Ulises também não tem mais paciência para qualquer terapia convencional e busca resolver os problemas dos pacientes com as próprias mãos. Um dia, ele se depara com um escritor de best-sellers meio arrogante – vivido pelo impagável Diego Peretti – e resolve dar uma ajuda nada ortodoxa ao sujeito, que está passando por um bloqueio criativo.

Contar mais do que isso pode estragar algumas surpresas da história, e elas existem, apesar do filme funcionar na maior parte do tempo naquele registro curioso mencionado acima. Goldfrid e seu roteirista Emanuel Diez se concentram em explorar a dinâmica incomum entre esses dois personagens, e alternando entre momentos tensos e cômicos.

Para realçar a tensão, temos uma cinematografia que capricha no clima sombrio nas cenas ambientadas à noite no apartamento do escritor – com direito a boas doses de voyeurismo – e uma trilha sonora bastante hitchcockiana e com sabor retrô. E as situações engraçadas decorrem das atuações dos atores e das situações bizarras que tanto Ulises quanto o escritor criam ao seu redor – um momento dos dois dançando ao som de “Careless Whisper” do George Michael é esquisito e bem engraçado, e obviamente serve também para adicionar uma camada ao incomum relacionamento.

E claro, Darín e Peretti estão inspirados. O primeiro, como um tipo inteligente e cativante, mas que obviamente possui alguns problemas emocionais tal e qual seus pacientes. E o segundo é tão autocentrado que seu amor por si mesmo rende boas tiradas e momentos estranhos. Ver os dois dividindo a cena é a maior alegria de A Terapia Certa e a melhor razão para ver o filme.

De fato, o filme não se aprofunda muito numa discussão sobre os limites da psicanálise ou as reais diferenças entre terapeuta e pacientes, nem desenvolve muito as personalidades dos seus dois personagens em conflito. E clima é meio de um Hitchcock light se intercalando com momentos de Woody Allen. O tom ora tenso, ora engraçado, quase sempre bizarro, deixa o longa mais sarcástico do que propriamente ácido. A Terapia Certa não é um novo clássico do cinema argentino, mas é um filme interessante e agradável que consegue divertir por boa parte da sua duração. E em outros momentos, o espectador ri de nervoso.