“Abraço de Mãe” começa no caminho certo: é o raro filme rodado em digital iluminado de forma cuidadosa. Até porque, em se tratando de filmes de terror do novo milênio, é sempre fácil apostar no negrume generalizado e na homogeneidade dos pixels. Mas o prólogo do filme, passado em um parque de diversões no Rio de Janeiro dos anos 1970, tem ares quase de Dario Argento, com suas luzes coloridas e efeitos quase psicodélicos.
Esse flashback nos mostrará um evento traumático da vida de Ana (Marjorie Estiano) que, agora adulta, é cabo do Corpo de Bombeiros. Visões do passado têm afetado o desempenho no seu já normalmente perigoso trabalho, mas as coisas pioram quando a equipe dela é chamada a um asilo caindo aos pedaços. Os cariocas sabem que a chuva é sempre um fator de tensão na cidade e, com uma tempestade torrencial do lado de fora e acontecimentos sinistros do lado de dentro, Ana se vê presa nessa espécie de casarão mal-assombrado.
Exceto que não são bem fantasmas que assolam o lugar; “Abraço de Mãe” segue por caminhos bem mais lovecraftianos. Ana irá adquirir ares de final girl ao longo da história, com um quê maternal cheirando à Ripley de “Aliens – O Resgate”. De referência em referência, o filme até que avança com segurança e o diretor Christian Ponce tem um bom olho para a clausura infernal do lugar.
O grande problema vem no terço final. Não só ele se arrasta por tempo demais, diluindo qualquer efeito horrorífico possível, como (e isso parece ser por design) se lança em alguns esoterismos vagos que parecem pensados para frustrar o espectador. Até mesmo o bebê gigante de “2001 – Uma Odisseia no Espaço” entra na brincadeira.
Isso não tira nada da diversão de assistir Marjorie Estiano como uma scream queen verde-e-amarela. Se em “As Boas Maneiras” ela tinha um papel com um quê de cômico, aqui ela pode espernear, chorar, bater e xingar à vontade. Mais do que os tropeços do longa, a memória que fica deste “Abraço de Mãe” é calcada no rosto da atriz e sua expressão de durona.












