Dramas sociais baseados em situações reais, além das boas intenções em encenar a questão em si, precisam serem habilidosos para atingirem dois pontos que considero fundamentais: 1) envolver o público na dimensão da situação em que retratam; 2) levar o espectador a refletir melhor sobre a temática. Dito isso, “Dossier 137”, filme de Dominik Moll que concorre na competição oficial, a Palma de Ouro, neste Festival de Cannes até se mostra sólido no primeiro ponto, contudo, é frágil em desenvolver o segundo, no caso, o tema central que norteia o seu texto.

Ao partir de um caso real – as manifestações do movimento dos Gilets Jaunes, conhecidos como jalecos amarelos na França -, Moll procura retratar mais uma brutal história de violência da polícia francesa. Léa Drucker é Stéphanie, uma investigadora do IGPN, seção policial que investiga as condutas administrativas de policiais e que se vê encarregada de analisar o caso de quatro colegas acusados de disparar uma arma contra um jovem manifestante pacífico, o deixando gravemente ferido.

Gosto da forma com que Dominik Moll trabalha o drama social sob a forma de thriller. A direção segue um caminho dinâmico, a narrativa é ágil e as atuações são competentes com destaque para a sempre ótima Léa Drucker. Entre depoimentos e mais depoimentos, “Dossier 137” investiga as formas de justiça utilizadas para controlar a violência policial e que muitas vezes esbarram nas burocracias da esfera judiciária, que praticamente não permite que a real justiça seja aplicada em relação a seus pares.

O argumento que questiona o país de Macron e que se apropria do autoritarismo policial para disseminar a violência, assim como recebe proteção do Estado e do judiciário para suas ações opressoras, têm um valor reflexivo interessante, mas que o roteiro nunca imprime profundidade ou urgência nesta análise. “Dossier 137” acaba por ser mais um filme-denúncia engessado e até mais comum do que deseja – uma espécie de relato de Wikipédia de um determinado assunto – semelhante a tantos outros.

Por mais que Moll seja hábil em manusear a narrativa com diversas reviravoltas durante a história, “Dossier 137” não foge das obviedades e dos clichês comuns como da funcionária que tem um vídeo revelador dos fatos e que some e desaparece na mesma medida. Até mesmo as relações de Stéphanie com os familiares da vítima se mostram bem anêmicas em produzir uma dramaturgia conflituosa em torno das ações da protagonista, mas que não impedem de Drucker de mostrar o seu talento em extrair as emoções mais genuínas da protagonista em situações complicadas.

“Dossier 137” neste aspecto é um bom entretenimento que jamais cansa, apenas carecendo em dar uma pulsação vibrante a sua trama. Semelhante ao gosto de injustiça e revolta que o roteiro denúncia, ele próprio deixa a sensação incômoda de não elevar o material base à altura.