Quando li a tetralogia napolitana de Elena Ferrante, entendi que todos temos um Nino Sarratore: alguém que amamos muito e nos perguntamos se teríamos dado certo. Essa pode não ser a premissa que David Freyne escolheu para “Eternidade”, mas é a oportunidade exata que oferece a Joan (Elizabeth Olsen) quando ela chega no pós-vida.

Com um aspecto existencialista, “Eternidade” acompanha o desenrolar da história de amor entre Joan, Larry (Milles Teller) e Luke (Callum Turner). Ambos estão numa espécie de limbo após a vida, no qual as pessoas possuem uma semana para decidir como passarão a eternidade. Joan é colocada para escolher entre Larry — o homem com quem foi casada por quase toda a vida adulta — e Luke — seu primeiro amor que morreu na guerra da Coreia e a esperou por décadas no limbo — com quem passará sua vida eterna.

Até que ela tome sua decisão, o filme passeia entre humor, drama e romance; diluindo entre si cada um desses elementos. A mistura de gêneros torna sua construção simplista, sem a coragem de ousar e, ao mesmo tempo, uma comédia que te embala e faz torcer a cada momento por todos os personagens, sem exceção. O roteiro brinca com a ideia de um amor construído com o tempo e em detalhes cotidianos versus uma paixão avassaladora e caliente. Sabiamente, há um ponto de equilíbrio nessa discussão que o tira do lugar comum de que um amor cotidiano está preso a uma relação desgastada, por mais que no primeiro momento isso possa ser sutilmente indicado na narrativa.

A narrativa escrita por Patrick Cunnane e David Freyne nos mostra diferentes fases do amor que reverberam na concepção individual que cada ser humano possui. Isso acontece, por exemplo, quando descobrimos que, no pós-vida, cada um tem o corpo da fase na qual foi mais feliz e realizado, as escolhas sobre qual eternidade viver também dizem muito sobre o que forma cada sujeito. Larry e Luke surgem nesse cenário como representações de indivíduos, mas também do tipo de amor romântico em destaque. 

As metáforas, os detalhes, as falas e os gestos indicam o que cada um deles personifica e agrega na vida de Joan. Por um lado, há Larry, seu marido de tantas décadas que tem como principais vantagens a intimidade e o companheirismo, aspectos que também tem seu lado negativo como ser tão íntimo a ponto de cair na rotina e o relacionamento se tornar enfadonho em algum momento. O personagem de Milles Teller ainda configura o costume e o cotidiano de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida, como diria Cazuza e Frejat. Por outro lado, Luke representa a intensidade de um amor idealizado, ardente, cujas sensações são amplificadas pela distância e o desconhecido. 

A verdade é que tudo funciona a partir do triângulo amoroso formado por Olsen, Teller e Turner. Há uma química perceptível e cada um dos atores encaixam-se perfeitamente nos personagens, os quais, por sua vez, encontram seu espaço nos papéis destinados dentro da trama e do relacionamento amoroso. É o personagem menos ordinário que Teller interpreta desde “Whiplash”, enquanto Turner realmente emula o homem perfeito, carregado de falhas que a gente passa a mão na cabeça. Mas quem brilha mesmo é Olsen.

O coração do triângulo amoroso detém a simpatia e empatia do público. É fácil se envolver com Joan e sua escolha difícil entre um amor conhecido e aquele que poderia ser. Olsen transborda com seu olhar em grande angular carisma, sensibilidade, carinho e empatia. Tenho apenas um incômodo em relação a sua personagem: Joan não pode escolher para onde quer ir, suas escolhas são pautadas pelo desejo dos homens que a circundam, quando claramente ela não gosta nem do mundo das montanhas e nem da praia. Por que então não deixá-la decidir para onde ir e os homens a seguirem? Há uma outra complicação que procede daí: sua orientação é exclusiva aos sentimentos românticos, esquecendo outras relações que tem como com os filhos e os netos.

De forma geral, no entanto, “Eternidade” é um projeto bem redondo e gostoso de assistir. Ele tem uma atmosfera de filme dos anos 80/90 por conta da nostalgia que o pós-vida apresenta: cores vibrantes e complementares, cenários oníricos que remontam ao ambiente teatral e o arquivo de memória no maior estilo Michel Gondry, em “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, e Charlie Kauffman, em “Estou prestes a acabar com tudo”. 

O curioso, nesse ambiente pós-vida, é como os roteiristas o apresentam sobre uma ótica capitalista, todos querendo vender a sua eternidade como a melhor para viver para sempre. Deveria dialogar com as feiras norte-americanas de universidades, mas convenhamos que diante da temática há uma conexão bem maior com a abordagem do romance capitalista de Celine Song em “Amores Materialistas”. 

“Eternidade” é uma comédia gostosa de assistir, consegue reunir vários elementos que nos fazem embarcar e ter empatia pelos personagens dessa história, afinal quem não quer a sorte de um amor tranquilo com sabor de fruta mordida — nem que seja no pós vida?!