“Futuro Futuro” quer se chamar “Futuro Presente”. Nada demais nisso; os sci-fis costumam mesmo inventar um futuro para falar do presente. Mas “inventar” é a palavra-chave aqui.

O longa de Davi Pretto por vezes parece um acumulado de ideias rascunhadas, nenhuma das quais particularmente originais, bebendo dos tropos mais corriqueiros do gênero. Uma cidade dividida em uma zona para ricos e outra para pobres? Pode apostar. Um artefato de IA representado por um ponto de luz vermelho? Claro. E assim por diante.

Vez ou outra, Pretto encontra uma boa imagem, mesmo que de segunda mão. Ele imagina, por exemplo, uma escola em que as aulas parecem ter saído diretamente das sessões de lavagem cerebral de “A Trama”, de Alan J. Pakula. E há também visões da estéril cidadela dos ricos, caprichadas no filtro vermelho e cheias de pequenos truques digitais (ao que tudo indica, cortesia da IA generativa, o que é apropriado), que são verdadeiramente desconcertantes.

Mas, na maior parte do tempo, ficamos num vai-não-vai entre o naturalismo esquemático e um sci-fi sem qualquer especificidade. Sim, é curioso que seus personagens ganhem uns trocados fazendo o trabalho sujo das IAs, como ao analisar vídeos de segurança de sabe-se lá onde para aprimorar sua tecnologia de reconhecimento facial. Mas eu sei, você sabe e Pretto sabe que esse já é um sustentáculo da economia dos freelas do nosso mundo, de modo que fica difícil entender o que exatamente está sendo articulado aqui para nossa reflexão.

A chuva constante e o clima de fim de mundo fazem lembrar de algo como “O Buraco“, também uma visão apocalíptica do futuro próximo (e lá se vão 30 anos). Mas Pretto não é exatamente Tsai Ming-liang: seu naturalismo é meramente ornamental, com personagens dizendo falas expositivas e funcionais cena após cena. Falta qualquer coisa como personalidade.

Afinal, você há de se lembrar que, naquele filme de 1998, os personagens falavam quase nada — e, ainda assim, era um longa cheio de surpresas, arroubos surrealistas e, francamente, humor (a baratinha solitária que emerge faceira do buraco no teto sendo apenas um exemplo imediato). O que tornava todo o clima ao seu redor mais miserável e evocativo.

Ou seja, falta uma imaginação mais bem acabada a “Futuro Futuro” — irônico, então, que o filme seja sobre personagens incapazes de ter imagens mentais. Sua especificidade, é verdade, está no modo como incorpora as enchentes do Rio Grande do Sul de 2024 — certamente, algo que informa seu pessimismo apocalíptico. Há certo poder aí.

Vê-se que não é um filme isento de acertos: seu trabalho de locação, dos arrabaldes dos pobres à insólita renderização do condomínio-cidadela dos ricos (o quanto exatamente daquilo ali é real?), é fantástico. E a equipe de figurino é muito hábil ao sugerir um mundo em que as roupas parecem engomadas por camadas e mais camadas de suor seco.

É um fim do mundo, enfim, banal, não tão dissimilar ao apocalipse cotidiano de “4:44 — Último Dia na Terra“, de Ferrara (não um grande filme, mas certamente mais instigante). Ante isso, é possível que alguém tente censurar o crítico: talvez a falta de personalidade seja mesmo uma opção — afinal, estamos falando de um futuro absolutamente estéril. Ao que eu responderia: até mesmo a esterilidade pode ter diferentes texturas.