O único livro que realmente foi capaz de me deixar aterrorizada foi “It: A Coisa”. Acredito que parte disso se deva a como Stephen King consegue enraizar a maldade nessa obra com elementos que tangenciem a realidade, deixando incômodos que nem sempre são sentidos de imediato. O Cine Set teve acesso aos primeiros cinco episódios da série “It: Bem-vindo a Derry”, produzida e distribuída pela HBO Max, e o que podemos dizer até aqui é o quanto a produção consegue transmitir o terror e o medo que tanto me impactaram na leitura do livro. 

Há uma escolha interessante dos showrunners Jason Fuchs e os irmãos Andy e Barbara Muschietti em trazer não apenas os traumas, mas também o preconceito racial e de gênero como pontos de partida e centralidade do medo. Sai de cena o cômico espelhado nas crianças nos dois filmes recentes e entra em enquadramento como o trauma as afeta diretamente. O núcleo infantil continua sendo o principal foco do mal em Derry, mas este não se restringe unicamente a eles, uma vez que a série também utiliza dois núcleos adultos – o militar e o do cinema – para discutir o racismo.

A cidade torna-se o personagem central da série. Todas as narrativas passam por ela e atestam algo que King deixou bem claro nas primeiras páginas de “It – A coisa”: Derry é o lugar mais perigoso e insano do mundo, além de seus cidadãos insinuarem serem adeptos da eugenia. Nada costuma ser normal na pequena cidade do Maine, afinal de contas: é possível sair de Derry? E se você consegue: por que as memórias da cidade somem? Até aqui, apesar da expansão das neuroses desse universo, essas ainda são perguntas a serem respondidas. Em meio a tudo isso, uma coisa é certa, nada segue o fluxo das coisas ditas normais.

A narrativa se passa próximo aos eventos de testes nucleares estadunidenses, logo duas questões centrais são utilizadas como background: a guerra nuclear e a guerra fria. O núcleo militar, embora seja retratado entre mistérios e suspense sobrenatural, é projetado justamente para discuti-los, no entanto, em meio a escavações capazes de obstruir radiação e a busca por estar a frente da União Soviética em qualquer ala, este também é fundamental para que a série esteja mais próxima da atmosfera aterrorizante que o livro desperta.

Contribui para que isto aconteça a ambientação e as referências diretas a origem do mal em “It”. A série foca em um público mais adulto, o que possibilita adensar a discussão em torno de traumas e maldades que os seres humanos possam causar entre si. Dessa forma, tanto a direção de arte quanto a fotografia e a trilha sonora nos direcionam para uma atmosfera que realmente te leva a temer pelo que virá. O fato dos showrunners não terem medo de matar personagens carismáticos a qualquer momento e de forma violentamente gráfica também favorece essa sensação. 

Em paralelo a isso, a presença de Dick Hallorann (Chris Chalk) é um aceno a como “It: Bem-vindo a Derry” está disposta a mergulhar no universo de King. Se as escavações apontam para a origem de Pennywise, Dick nos atenua que futuras temporadas possam trazer outras histórias do escritor de terror. O telepata de “O Iluminado” parece sempre à espreita como se quisesse nos revelar algo, mas também nos esconder. Neste sentido, há o racismo estrutural velado em muitas cenas que o abordam, assim como nas que o Major Leroy Hanlon (Jovan Adepo) está em atividade e é como se simplesmente eles ignorassem ou deixassem passar impunemente de propósito. 

Em mim, tal escolha cria uma ânsia e um pânico que assombra sempre que vejo um ambiente não acolhedor, violento e predominantemente branco. Penso ser algo assim que assuste a dupla, ainda mais Hanlon que não teme a própria morte, mas não pode dizer o mesmo quando se trata de uma ameaça à sua esposa e filho. Um temor que a série pontua bem, sem a necessidade de diálogos, mas com predomínio de mise-en-scène.

Por fim, a estrutura narrativa nos traz um outro fator curioso: ela é construída em torno das palavras, do peso da prosódia e do terror que pode ser tomado a partir delas. O medo estampado no rosto do jovem Miles Ekhardt evidencia como estas também podem ser armas capazes de destruir a sua existência. Assim, embora os adultos sejam os grandes condutores narrativos, o microcosmo do que ocorre na cidade é latente na jornada das crianças. Não acredito que elas sejam o foco central da narrativa, mas um prospecto importante e necessário, afinal tanto Lili (Clara Stack) quanto Ronnie (Amanda Christine) são personagens apáticas quando postas em perspectiva com as outras crianças. 

Nesse sentido, vejo como um equilíbrio entre a ambientação infantil e adulta. Se os traumas pelos quais passam as crianças são visualmente violentos e até mesmo repulsivos, cada episódio traz oportunidade para que eles façam escolhas de acordo com a faixa etária — geralmente não muito sapientes, mas carregadas de aventuras e emoção. Daí provém outra abordagem positiva da produção: as crianças são tratadas como crianças. Elas continuam sendo o alvo de Pennywise, uma vez que o núcleo infantil parece mais suscetíveis as fantasias do palhaço macabro, mas em “It: Bem-vindo a Derry” não lhes cabe o papel de salvar o mundo. Elas continuam lutando suas batalhas, mas a perda não é motivo para destrui-las, é apenas um espelhamento do que pode acontecer com os adultos. É mais um motivo para ficar atento a série.

Os primeiros cinco episódios de “It: Bem-vindo a Derry” são um mergulho ao universo de “It” e uma oportunidade de realmente acompanhar visualmente o terror de Stephen King. Ao retratar a maldade “natural” dos seres humanos, Fuchs e os irmãos Muschietti conseguem a proeza de expandir uma obra já consistente. Vale a pena acompanhar o que mais vem por aí.