Impossível assistir Jamary sem ficar com uma sincera dúvida: estamos diante de uma obra em que a série de equívocos não foi percebida ou simplesmente faltou cuidado em sua realização? Um momento ilustra bem esse dilema.

A aspirante a influencer Ane, de 12 anos, grava um vídeo no celular antes de ser repreendida pela mãe (a incansável Isabela Catão, bravamente fazendo o que pode, dadas as circunstâncias). Então, grande susto — Ane deixa algo cair na cozinha. O que aconteceu, não sabemos, mas, presumivelmente, o bater de asas de uma galinha foi o motivo do sobressalto — presumivelmente, porque o frenesi dos cortes nos impede de fazer qualquer asserção segura sobre o que diabos houve.

É um exemplo. Há ainda vezes em que cortes abruptos interrompem o andamento da cena para inserções destrambelhadas, quase randômicas. Assim, Ane e sua mãe podem estar caminhando em dado momento, apenas para serem interrompidas por imagens de uma árvore sendo derrubada — antes que, de forma igualmente inesperada, retornemos à caminhada de mãe e filha. É enlouquecedor. 

Entendemos, após certo tempo matutando fortemente, que a intenção era mostrar que as duas ações — a caminhada e a derrubada — ocorrem em simultâneo. Um filme mais bem-sucedido talvez mostrasse primeiro a queda da árvore, para depois deixar a cena entre mãe e filha transcorrer em sua integridade. Ou, de modo mais complexo, buscaria estabelecer alguma relação entre as duas cenas — fosse por meio de rimas visuais, de correspondências temáticas, da progressão rítmica da montagem…

Mas não Jamary. O pior é isso acontece apenas nos primeiros cinco minutos de projeção — antes mesmo que, para emular a reprodução de um vídeo em tela, o precário PNG de um celular, provavelmente encontrado no Google Imagens, pipoque no quadro. A imperícia chega a comprometer até mesmo o bê-a-bá do campo-contracampo. A situação é tão complicada que sequer dá para se valer do rótulo de outsider art. O filme tenta ter o verniz da respeitabilidade e do profissionalismo, sem que haja qualquer perspectiva original do que quer que seja. 

A trama envolve uma criatura indígena, o Anhangá, de visual curiosamente reminiscente ao do fauno de Guillermo del Toro, invocada para dar cabo dos maléficos madeireiros da região. Mãos mais hábeis poderiam tirar algo de interessante daí — as máquinas de fumaça usadas na floresta nos levam a pensar no que um Rodrigo Aragão da vida faria com esse material. Sonhar é de graça.

Aliás, difícil dizer se o filme é voltado para adultos ou crianças. A figura central é a pequena Ane, mas alguns momentos de Jamary são brutais demais para os baixinhos, com direito a tortura e flechadas no pescoço. Por outro lado, nenhum adulto sentiria medo das tolices em cena. 

E assim, alternando entre os ataques do Anhangá e as subtramas melodramáticas da família de Ane, Jamary avança trôpega e sofregamente. Um filme difícil de acompanhar em todos os sentidos.