Há várias trilhas que podem ser utilizadas para compreender “Maputo”; me permito utilizar um viés social para ler o filme de Lucas Abrahão sobre um grupo de meninos que se autodenominam maputos. De um lado, a turma apresentada no curta-metragem lembra muito outros times de produções coming of age como “Os Batutinhas”, “Conta Comigo” e o clássico nacional “A Terra dos Meninos Pelados” de Graciliano Ramos, especialmente diante da percepção imposta sobre o protagonista pelos seus companheiros.
Abrahão cria desde o início um clima de desconforto que vai se estendendo de acordo com o desenrolar da narrativa. A trilha sonora e a ambientação auxiliam a criar essa atmosfera que é endossada pelos comentários e ações passivo-agressivos de todo o grupo sobre um garoto que quer pertencer a patota, mesmo em face de humilhações e rejeição. Afinal de contas, o que é ser Maputo? Vale tanto a pena assim?
O roteiro nunca deixa evidente o que a palavra que intitula o filme quer nos dizer. Quando jogo Maputo no Google, a resposta obtida é a de que esse é o nome da capital de Moçambique, recebido em homenagem a bebida utilizada em cerimônias tradicionais no país. O que isso tem a ver com a trama de “Maputo”? Bem, acredito que nada. Mesmo assim, a dúvida sobre o que é Maputo permanece e é interessante porque esta também é a incerteza que permeia o protagonista, ainda que este queira pertencer ao grupo de qualquer forma.
Assim, primeiramente sabemos o que Maputo não é – não sangra, não sente medo, não pode andar pelo casarão – para depois entendermos o que Maputo é – o que sempre zoa, controla o vento e se faz de adulto. Volto a me indagar: vale a pena ser Maputo? O próprio filme responde essa pergunta ao nos fazer acompanhar esse grupo que não cria empatia em tela e nem tampouco nos deixa curiosos sobre suas próximas ações. Os atores-mirins estão tão apáticos quanto seus personagens.
Essas questões, no entanto, são primordiais para que o curta consiga distanciar o público e discutir de forma precisa pressão social, senso de pertencimento e a imaturidade que ronda grupos sociais. Afinal, em boa parte de grupos de amigos, há aqueles que se destacam e os que são eclipsados por esses. Abrahão utiliza a esfera infanto-juvenil para discutir, de certa forma, esses engajamentos sociais e o estágio de micro-poder presente nessas relações.
O filme alterna entre um cenário claustrofóbico – o túnel da cena inicial – e um não lugar – o casarão abandonado -, que conseguem descrever com primazia como o protagonista se sente dentro dessa turma e nos oferece um vislumbre do olhar dos menos favorecidos dentro de seus próprios grupo sociais. A ambientação mostra que o menino se aprisiona pela vontade de pertencer a um lugar e, ao mesmo tempo, como num não-lugar, não tem identidade, nomenclatura e nem relevância o suficiente para estar no mesmo ambiente que os meninos maiores de igual para igual. Uma comprovação disso encontra-se na ausência das caracterizações certas descritas por aqueles já estabelecidos no grupo e as intercambiáveis definições do que é ser maputo, sempre distanciado o personagem principal de ser aceito e assimilado dentro da panela.
Neste cenário, o filme perde de força quando opta por empoderar o protagonista e alimentar dúvidas de seu principal oposto. É interessante ver o quanto o jogo pode virar quando o elemento principal de poder é a imaginação, neste caso, a queda de braço por ser a figura que comanda a brincadeira. Sinto que neste último bloco, contudo, “Maputo” não se permitiu ousar e alcançar o ápice do desconforto que nos impõe ao longo de toda a narrativa. O que poderia evidenciar o quanto crianças também são seres acinzentados, ou simplesmente apáticos.











