Era 2020 quando Rafael Ramos lançou aquele que considero o grande curta-metragem amazonense da década: Manaus Hot City trazia a singularidade de captar as dubiedades da cidade. É sobre aquele sentimento de sabermos se tratar de um lugar tão mágico quanto desgastante, do local de amizades para toda a vida e da necessidade de sair para poder existir com o mínimo de dignidade, da liberdade e do medo lado a lado. Isso a partir de um raro encontro de um cinema manauara sensorial com a música e a literatura local. Filme gigante.

Tarde Dentro da Tarde chega como o retorno de Rafael Ramos aos curtas de ficção e deixa um gosto amargo pelo caminho. As virtudes do diretor continuam lá, mas tudo neste novo filme parece repetitivo e, pior, inconsistente. E aquilo que poderia ser o grande ponto diferencial fica pelo caminho. Sobram, então, os lugares mais comuns possíveis.

Inegável como Rafael segue sendo um dos melhores observadores do modo de vida amazonense com capacidade ímpar de traduzir isso para as telas a partir dos detalhes. Isso ressoa em Tarde Dentro da Tarde com aquelas placas cafoninhas e universais em homenagem à mãe, os chinelos espalhados na porta de casa, os discos e a trilha de brega, o jeitinho para quebrar a castanha com a ajuda da janela até a fiação bagunçada dos postes com direito a um pedaço de papagaio no meio delas. Difícil achar uma família manauara que não se reconheça em algo. O diretor, ao lado da sempre competente fotografia de Valentina Ricardo, dimensiona todo aquele universo como um bom escritor ao descrever um ambiente, criando familiaridade com a história quase de imediato. 

A grande questão é o próximo passo. E é aqui que Tarde Dentro da Tarde parece tão hesitante. De um lado, temos uma protagonista evidente interpretada com sutileza por Rafaela Monteiro. Toda a poética da introdução do almoço despreocupado, do cochilinho, da rede com o namorado e do sentimento de plenitude cai por terra com o silêncio de desespero, paralisante da descoberta da gravidez inesperada e do mistério do que será a vida dali para frente. Novamente, a observação de Rafael é usada para captar o olhar distante da angústia em diversos momentos de forma assertiva e discreta como se fosse alguém respeitando o espaço da personagem sem perder a preocupação.

A situação se complica a partir do momento em que o filme expande o contexto ao trazer uma série de personagens femininas dialogando ou convivendo entre si dentro do universo da protagonista. Sem dúvida, uma proposta ambiciosa para um curta-metragem de pouco mais de 15 minutos. A execução, porém, passa longe de se encontrar. As frações oferecidas a elas são tão pequenas que não saem do lugar. Karol Medeiros como a dona do bar é o exemplo mais claro disso: pela ótima atriz que é, até é possível criar um interesse em saber o que faz aquela mulher aparentemente tão forte cair no choro. Fala-se de uma briga com a mãe e é isso. Depois, ela aparece em um monólogo da amiga e pronto. Fim de história.

Já as demais estão ali para demonstrar a harmonia de um lar feminino, repleto de apoio, carinho e solidariedade entre elas, enquanto os homens estão ausentes. Tarde Dentro da Tarde se encanta tanto com este universo e com a sinergia do elenco feminino a ponto de esticar momentos que já diziam tudo na primeira ocasião. Com isso, temos a sequência de dança presente em 80% dos filmes brasileiros dos últimos anos; aqui no caso ao som de Sonho Lindo, do Calcinha Preta, um interminável jogo de vivo ou morto e ainda um momento de jardinagem e descoloração de pelos. Quando retorna para a protagonista em uma conversa reveladora com uma tia, a única que consegue enxergar o tormento, a produção volta a se encontrar a ponto de se tornar inevitável perguntar a razão de se ter gasto tanto tempo com outras coisas que não estivessem na história principal.

A linha poética dos diálogos e divagações das personagens de Rafael Ramos, desta vez, sai dos trilhos e perde o tom muitas vezes. Nesta perspectiva, há de tudo um pouco: as frases de efeito para reforçar a mensagem do filme (“o problema é o homem merda, que não paga pensão, que faz a gente trabalhar feita uma filha da puta”), os chavões de doer encontrando o ápice no monólogo em cima da laje terminado em afeto, uma das palavras mais irritantemente desgastadas do português na atualidade, e os excessos em momentos decisivos (“a gente costuma guardar fissuras dentro da gente“) que tiram toda a singeleza daquele que se apresentava como o momento mais comovente do filme para chamar a atenção para o discurso.

Como diz a protagonista na reta final, o desejo dela é ver o rio passar. Já que o rio sempre teve especial destaque nos filmes de Rafael Ramos, digamos que Tarde Dentro da Tarde seja apenas um caso de leve maré baixa.