Espaço e Silêncio. Esses dois elementos são fundamentais na história que Domingas Sotomayor escolheu contar em La Perra. Ambientado em uma ilha chilena isolada pelo oceano, é curioso e proposital como tudo ao redor conspira para que a narrativa mergulhe num silêncio que embala a solidão que cerca a protagonista.
Acompanhamos Silvia (Manuela Oyarzún), uma mulher de meia idade que mora em uma ilha no Chile, um dia ela encontra um cachorrinho abandonado, chamando-o de Yuri – o nome escolhido para uma filha que ela nunca teve. Ao se relacionar com o cachorro, Silvia busca a cura de um trauma que a atormenta. Nesse processo, La Perra utiliza esse relacionamento para que conheçamos melhor Silvia e evidencie como Yuri se torna um espelho seu e, consequentemente, um caminho para a reconciliação com o passado e com o seu próprio eu.
Sotomayor utiliza os elementos espaciais e fotográficos para evidenciar como sua protagonista é uma pessoa solitária, que carrega a culpa e o medo de deixar alguém participar da sua vida. O mar, tantas vezes utilizado para falar sobre liberdade e a dualidade entre a vida e a morte; em La Perra serve como um lembrete constante do isolamento e da distância que Silvia vive de qualquer realidade que não esteja dentro de sua mente. Por isso, seu companheiro diz que vai passar uma temporada em alto mar e isso não a abala, porque os conflitos presentes internamente são mais fortes do que qualquer discussão que ela poderia ter. E isso diz muito sobre o que “La Perra” projeta.
O filme discute questões que estão presentes em diversas sessões de terapia: como é ter uma vida marcada pela culpa e a perda. O isolamento é um recurso espacial para evidenciar o quanto Silvia alimenta esses sentimentos. Dessa forma, seu encontro com Yuri funciona como um bálsamo e uma válvula de escape para quem carrega a dor por tanto tempo sozinha. O curioso, nesse processo, é que tive a sensação de que, apesar de todo carinho que sente pela cachorra, Silvia não sabe demonstrar, por isso quando Yuri foge com medo dos fogos de artifício do ano novo, ela não consegue lidar com a situação, como se o seu mundo desabasse. Situações que facilmente poderiam ser tratadas num divã.
Visualmente, a fotografia de Simone D’Arcangelo nos envolve em um jogo de luz e sombra que contribui para o tom soturno que envolve La Perra e nos prepara para entendermos as dores que transpassam a vida de Silvia, sempre lhe arrancando um pouco mais da alegria que ela poderia ter. Quem nos auxilia para entender essa situação é a montagem de Federico Rotstein, responsável por um flashback robusto que exige a atenção do público, uma vez que, tal como o tempo nessa ilha, ele vai e volta entre o passado e o presente, utilizando de transições sutis para evidenciar como Silvia orbita entre suas memórias aterradoras e um momento contemporâneo letárgico.
Essa passagem nos permite, finalmente, compreender porque Silvia se mantém arisca, distante e perder Yuri seja realmente o ponto de inflexão para uma vida de autopunição. É nesse ponto que um incidente envolvendo a família brasileira liderada por Selton Mello, marca para sempre a vida da protagonista. A breve participação do ator, em sua estreia no Festival de Cannes, embora curta é potente e magnética. Com seu tom amigável e carismático, rendeu uma das minhas cenas favoritas do filme: sua interpretação de Aguenta Coração, de José Augusto.
Fico pensando no quanto a canção poderia muito bem ser um recado da jovem Silvia para a Silvia dona de Yuri. Afinal, como uma projeção de sua dona, o que a cachorra mais quer é usufruir da liberdade. Sua fuga, mais do que escapar da perturbação que os fogos evocam nos animais domésticos, representa uma escolha feita por Yuri. Ela não está perdida, tomou a decisão de partir e viver a vida da maneira como acha ser interessante. Ao ar livre, no campo, longe de qualquer amarra. Escolhas que sua dona gostaria de fazer, mas lhe faltou coragem e ousadia.
La Perra é uma produção silenciosa e que nos possibilita enxergar um outro lado da solidão feminina e como ela pode ser moldada pelos traumas, os silêncios e as perdas da infância. Sotomayor entrega esse olhar delicado, sensível e honesto.













