Nunca estamos preparados para perder alguém, por mais iminente que seja. Essa é a verdade. E tudo se torna ainda mais difícil quando somos dependentes em todos os âmbitos de quem partiu. Enfrentar isso é praticamente um renascimento. É aprender tudo de novo – ou pela primeira vez, e nem sempre em voz alta. 

Leite em Pó, primeiro longa de ficção de Carlos Segundo, traz Vicente (Vinicius de Oliveira), um aspirante a cantor de rock, que sofre uma perda familiar que desmonta completamente sua vida. A partir dessa perda, o filme aborda as diferentes fases do luto. Aliás, um tema bastante recorrente na mostra deste ano. 

Devo dizer que o maior mérito do filme é ser imprevisível. Existe uma espécie de suspense pairando sobre a narrativa, como se alguma coisa de negativa estivesse sempre prestes a acontecer. Nós nunca sabemos o próximo passo de Vicente e que decisão ele irá tomar. O que torna tudo mais cômico é que o próprio Vicente não sabe o que fazer após a perda da avó (Zezita Matos).

Leite em Pó é um filme soturno, de ritmo contemplativo, interessado naquilo que o personagem não consegue dizer e não é capaz de expressar. Não há pressa para entregar respostas e parece entender que o luto nunca acontece de maneira organizada. Parece vir também para desmontar o mito de que com o tempo nos acostumamos, ou de que uma hora passa. Vicente caminha pela cidade, arruma um emprego novo em que é obrigado a socializar, conhece novas pessoas e escuta diferentes histórias sobre perda, tudo isso enquanto tenta aprender a sobreviver por si, enquanto continua preso às marcas daquilo que perdeu. Especificamente, ao cadáver da avó, que ele se recusa a enterrar até receber a aposentadoria. 

Vinicius de Oliveira está muito bem como Vicente. O ator encarna um tipo muito diferente: o protagonista é sombrio, enigmático, um homem de mais de 30 anos, mas que vivia às custas da avó. Essa relação também se reflete na forma com que ele se relaciona com outras mulheres ao longo do filme. Temos uma figura intransigente, cínica e até soberba, quando julga ter seu gosto por rock superior aos outros. Existe uma melancolia na atuação de Vinicius, que combina perfeitamente com o tom sombrio do filme. Ele nunca tenta transformá-lo em uma figura simpática; Vicente é perdido, limitado e incompreensível.

Essas escolhas o tornam um Leite em Pó mais dúbio, que não está interessado em explicar nada a alguém. Em alguns momentos, a insistência no silêncio e na contemplação pode cansar o espectador. O ritmo é deliberadamente lento, e nem sempre essa lentidão produz o efeito esperado, é só cansativo mesmo. Ainda assim, existe coerência na maneira como o diretor constrói esse universo pesado e melancólico sobre perdas.

Um dos maiores méritos de Leite em Pó está na forma como aborda o suicídio, principalmente ao tratar deste tema com personagens maduros, o que não é comum. O filme não transforma o tema em espetáculo, pelo contrário, traz uma abordagem delicada e aposta no público para tirar suas próprias conclusões. Falar sobre suicídio também é falar sobre quem fica e sobre as perguntas que permanecem depois da perda. O filme prefere sugerir a dor a explicá-la, e essa escolha combina com sua proposta mais soturna de aprendizado.

No fim, Leite em Pó é um filme sobre o que acontece quando a vida precisa continuar mesmo depois que, por dentro, alguma coisa parece ter parado. É um longa que não facilita a experiência para o espectador, pelo contrário, quer ensurdece-lo com o silêncio. E é justamente nesse silêncio que Vicente encontra sua voz.