Hamnet marca o reencontro de Chloé Zhao consigo mesma. A chinesa radicada nos EUA se consagrou nos cinemas por jornadas intimistas de protagonistas com vidas alteradas por traumas dos mais diversos, encontrando um ponto de conexão com a natureza. 

De Songs My Brothers Taught Me passando por Domando o Destino (seu melhor até hoje) até Nomadland, a liberdade do ambiente externo trazia a força de seus personagens, como se somente estivessem completos ali. Após vencer o Oscar, Zhao tentou levar este processo para Os Eternos e, ainda que o longa tenha uma personalidade que falta a 90% das obras do gênero, ficou claro como fora engolida pelas engrenagens automáticas do Universo Marvel. 

 

Por isso, chega a ser simbólico conhecermos a protagonista deitada no meio da floresta, rodeada do silêncio, do vento e das árvores logo na cena de abertura. É no contato com a terra e com os animais que Agnes (Jessie Buckley) se fortalece, independente daqueles que a chamam de bruxa ou de ser malvista pela comunidade interiorana onde vive. Ao conhecer um professor de latim menosprezado pelo pai endividado e ainda pouco valorizado dramaturgo iniciante, a conexão é imediata como se aquelas figuras, fora da caixinha de como aquele universo opera, tivessem apenas aquele destino possível. 

Se você espera uma lógica pragmática onde tudo está dentro do campo racional, esqueça: Zhao faz questão de abraçar o misticismo e os mistérios da natureza. Agnes é um ser mais da floresta do que urbano, simbolizado pelo vestido vermelho combinar mais com as cores da mata do que da frieza e escuridão das casas e do vilarejo. A protagonista sente-se mais segura parindo sozinha, abraçada pelas árvores do que ao lado de parteiras e ajudantes.  

Através do ritmo do vento, das folhas, dos rios que Hamnet se move, entendendo, inclusive, a união do casal e a força daquela família como algo para além da compreensão da racionalidade. Para tanto, Jessie Buckley e Paul Mescal são fundamentais com seus olhares tão vívidos e encantados pela presença um do outro, lado a lado, conectados por uma liga invisível, mas, que se sente a cada segundo em que estão juntos. 

Em um mundo em que a lógica humana pragmática está abaixo da natureza, o maior dos temores de um ser humano – a morte do filho – é uma realidade mais do que possível, um alerta incômodo e desesperador sobre a fragilidade da vida, como reforça a personagem de Emily Watson em um monólogo assustador de tão sóbrio. Zhao, então, revela outra faceta que homens e mulheres possuem semelhante com a lógica dos rios e a floresta: a força da palavra.  

O simbolismo do dizer se coloca tão potente quanto o agir, seja para se oferecer em sacrifício como também para reviver aqueles que amamos. Também através do que falamos e escrevemos, gera-se a criação humana e nela expomos a dor do nosso peito, encontrando conforto ou, pelo menos, alento para seguir da forma que dá. E a maneira como isso alcança o outro a partir da arte se caracteriza no belo momento da encenação de Hamlet e em como os significados e simbolismos se constroem para cada um. 

Chloé Zhao está de volta ao terreno em que se sente mais confortável, acrescentando ao intimismo marcante dela um componente emotivo que, por vezes, faltou a Nomadland. Hamnet retoma uma caminhada de um cinema capaz de repensar nossas certezas ao olhar para a natureza como um ponto de reencontro.