O que seria mais insólito de se ver no interior de pleno Cerrado mato-grossense: um santuário de elefantes? Dois meninos adolescentes descobrindo o amor e a sexualidade? Ou uma mulher de meia-idade envolvida com um homem mais novo? Em “Memória de Elefante”, as liberdades humanas podem soar mais ameaçadoras aos olhos dos outros do que mamíferos gigantes fora de seu hábitat natural.

O longa nos apresenta a duas tramas que se passam no mesmo vilarejo, mas em tempos diferentes: num passado ainda recente, os adolescentes Dumbo e Samuca nutrem uma forte amizade um pelo outro. Esse carinho é imediatamente visto como a possibilidade de algo a mais e, por isso, fortemente repreendido pelo pai de Dumbo. Já anos depois, acompanhamos Marta, latifundiária que mantém em suas terras um santuário de elefantes. Essas terras representam também uma das últimas resistências ao avanço da soja na região. Ao mesmo tempo, Marta sofre ainda um luto familiar e se envolve secretamente com Bento, um homem mais novo que ela, em um relacionamento que tende a não ser visto com bons olhos pela comunidade.

A ideia de elefantes em pleno Cerrado não é tão impossível quanto parece ser de primeira: na verdade, o diretor e roteirista Severino Neto já deixa claro logo nos créditos de abertura que se inspirou na existência do Santuário de Elefantes Brasil, lugar que realmente existe e abriga animais vindos de situações de cativeiro. Os mamíferos, porém, são aqui apenas um pano de fundo para o filme, como um elemento que está lá para ser referenciado frequentemente pela narração e para nos lembrar da persistência da memória – seja ela na história de Marta, assombrada pelos fantasmas de seu luto, seja na história de Dumbo, à sombra dos preconceitos de seu pai.

“Memória de Elefante” está, portanto, mais preocupado mesmo em acompanhar seus personagens, com um olhar quase documental e naturalista para eles e o ambiente ao seu redor. São closes e planos fechados em rostos e detalhes de reuniões comunitárias, festas na igreja e momentos de trabalho no campo. Enquanto isso, a montagem avança principalmente por meio de elipses: são momentos íntimos ou de virada na jornada dos personagens que não são mostrados em cena, mas ficam claros o suficiente para que completemos as lacunas entre um plano e outro.

Ainda assim, não deixa de ficar uma sensação de que as duas tramas não são tão bem costuradas e desenvolvidas quanto poderiam e acabam disputando atenção entre si, como se não pertencessem ao mesmo filme às vezes. Se, por um lado, o prólogo se concentra na história de Dumbo e Samuca, o longa quase se esquece dos dois depois disso, focando com mais destaque na trama de Marta e Bento.

Isso por si só não seria um problema, se não fossem os conflitos sem maiores desenvolvimentos e resoluções que se amontoam no filme como um todo, e que esfriam o potencial das catarses de cada uma das histórias. A catarse quase surge com muita delicadeza no final de Dumbo e Samuca, por exemplo, mas empalidece um pouco à medida que percebemos que as duas histórias se encaminham para o final sem conversar entre si.

Em determinado momento do filme, um dos personagens de “Memória de Elefante” aponta uma suposta contradição dos demais em recusar o avanço do agronegócio, afirmando que os elefantes, assim como a soja, também não fazem parte do Cerrado. Da mesma maneira, talvez as duas histórias que se conta aqui brilhariam mais se não fizessem parte do mesmo filme.