A quem (ou ao quê) cabe decidir encerrar uma vida? No momento em que se escreve este texto, já são mais de 73 mil palestinos mortos no genocídio promovido por Israel na Faixa de Gaza, no que talvez seja o massacre mais bem documentado da história e que, a despeito disso, segue em pleno andamento. Para as Forças de Defesa de Israel (FDI), porém, essas milhares de vítimas, que incluem mulheres e crianças, não têm nome nem identidade: elas são “NAZA”, um acrônimo vindo do termo hebraico “Nezek Agavi”, que significa nada mais do que “dano colateral”.
Essa palavra dá título ao novo documentário dirigido pelos jornalistas israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, também coautores do vencedor do Oscar “Sem Chão”, que já retratava a violência da ocupação israelense na Cisjordânia. Em “NAZA”, a dupla investiga o uso de inteligência artificial e de sistemas de processamento muito bem desenvolvidos e implementados para auxiliar Israel a identificar alvos palestinos em potencial, selecioná-los e atingi-los remotamente em Gaza, com poucos toques de botão.
Para isso, Yuval entrevista mais de vinte israelenses envolvidos em diferentes níveis e unidades das FDI, desde programadores responsáveis por projetar algoritmos e sistemas até operadores que mapeiam prédios e lançam mísseis e drones remotamente. Todos os entrevistados têm suas identidades protegidas. Portanto, vemos apenas suas silhuetas e ouvimos suas vozes distorcidas, em entrevistas gravadas à noite em diferentes terraços de Tel Aviv.
Assim, o horror da guerra surge não de imagens do confronto em Gaza, mas dos relatos dos entrevistados. Yuval e Rachel decidem focar nos depoimentos, sem mostrar os impactos diretos sobre a Palestina, a não ser nos minutos finais. Obviamente, também não temos acesso às imagens dos sistemas mencionados, com exceção de desenhos que são rabiscados por alguns dos depoentes, ilustrando como regiões inteiras são mapeadas e destruídas em questão de minutos.
Os entrevistados revelam perspectivas distintas: enquanto alguns tentam se justificar ou se eximir das ações tomadas, outros demonstram algum tipo de arrependimento ou afirmam não saber como reagir às constatações e questionamentos que Yuval faz durante as entrevistas. Nos momentos mais aterradores, alguns evidenciam o profundo nível de desumanização em curso no conflito, afirmando como é divertido mirar e acertar prédios e pessoas, por exemplo, como se fosse simplesmente um jogo de videogame.
Nesse sentido, um dos grandes trunfos de “NAZA” reside em sua montagem, também assinada pela dupla de diretores. Em paralelo às entrevistas, Yuval e Rachel intercalam imagens de diversos prédios em Tel Aviv e suas janelas acesas durante a noite. São vislumbres da vida cotidiana de diferentes pessoas em apartamentos amplos, com rotinas aparentemente tranquilas, vendo TV, lendo ou saindo para festas, em um claro contraponto aos relatos de destruição que ouvimos sobre Gaza.
Mais do que isso, essas imagens reforçam a grande contradição desse conflito do ponto de vista israelense. Ao longo de todo o filme, vemos, nas TVs das salas desses apartamentos, trechos de matérias de jornal e declarações do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu que defendem os ataques de Israel a Gaza como uma mera retaliação ao Hamas. No entanto, o que a rotina de Tel Aviv captada por “NAZA” revela é uma metrópole rica e aparentemente tranquila, em que a vida corre normalmente, alheia ao terror de Gaza.
A certa altura, um dos entrevistados recorda uma viagem à Polônia durante a juventude em que se perguntou como os alemães tinham sido capazes de promover o Holocausto contra o povo judeu. Ele, então, se questiona: “se eu acredito que os nazistas foram maus, o que isso faz de mim?”. Ao final, “NAZA” é não só uma potente (e triste) investigação jornalística sobre um genocídio promovido com o uso da tecnologia, mas também uma leitura eficaz sobre as contradições que estão na base desse conflito e um alerta sobre os perigos que ainda podem estar por vir.














