Imagine viver em estado de sítio; imagine ver sua vizinhança ser destruída sistematicamente, casa a casa, semana após semana; imagine protestar contra tal destruição e acabar com uma bala na coluna, paralítico dos ombros para baixo, dentro de uma caverna suja. Não é preciso mais imaginar: No Other Land é a concretização desse horror.
O genocídio palestino é o primeiro da história a ser amplamente registrado e difundido nas redes sociais, consumido via TikTok, disseminado através das antenas de TV, compartilhado por meio de hashtags. A janela com o player do filme está aberta neste momento em meu celular ao lado do Bumble. Eu assisto a remoções em massa e execuções de inocentes enquanto procuro um date para o carnaval.
Essa é, então, a pergunta que No Other Land coloca: o que podemos fazer diante dessas imagens? Porque assistir não é o suficiente. A não ser que se tenha a intenção de expiar algum tipo de culpa ocidental e se auto congratular pelo próprio esforço, em seguida. No fim, é aquele velho problema que está em jogo: pode um filme mudar o mundo?
E mais: como conquistar corações na era dos algoritmos? Porque denunciar já não basta: é preciso engajar. Ninguém deveria se preocupar com esse tipo de coisa, ainda mais com fuzis apontados em sua direção, mas é com esse tipo de pensamento que Basel tem que lidar. Ele é um dos quatro diretores deste documentário e registra a destruição de sua vila natal, Masafer Yatta, diariamente. A ele vem se juntar Yuval, jornalista israelense e ativista pró-Palestina. Os dois registram remoções e assassinatos e se perguntam sobre o propósito de seus esforços.
Esse é o filme. O que mais se pode dizer? Que suas imagens são bem enquadradas? Que suas cores são bonitas? Que tipo de métrica se pode usar para um trabalho como este? No Other Land, como tantos documentários, termina com letreiros informando-nos o desfecho da história, com a exceção de que não há desfecho nenhum aqui. A cada dia que passa, a destruição aumenta e a pilha de escombros cresce. O mundo continua girando.
Fica claro que fazer este filme foi uma forma de buscar razões para seguir em frente em meio ao horror. O espírito humano é indomável e persiste diante das maiores adversidades. Há pôr do sol no deserto e há um passarinho pousando sobre fios de eletricidade no final da projeção. Mas há alguma esperança de fato? O mundo continua girando. A história da raça humana é apenas um borrão no livro da existência.
Talvez o problema seja minha resignação cínica. Pode ser. Afinal, o filme está prestes a ganhar o Oscar de melhor documentário, ao que tudo indica. Ótimo. Mesmo assim, ele sequer tem distribuição nos EUA; os cineastas decidiram levar seu filme aos cinemas por conta própria. O que seria esse Oscar, então, além daquele velho gesto autocongratulatório, aquela batida expiação de culpa ocidental que também está por trás, por exemplo, da visita de sete minutos de Tony Blair à vila de Basel? Verdade, a repercussão de tal visita fez a máquina de terror israelense ser refreada por alguns instantes – mas só por alguns instantes.
A pergunta permanece: que efeito essas imagens geram em nós? Elas são inegáveis e, paradoxalmente, constantemente negadas, relativizadas. “Por que você odeia judeus?”, pergunta um sionista a Yuval durante um debate midiático. “Essas pessoas não sabem o que é um crime de guerra”, ironiza um âncora de TV acerca dos protestos de Masafer Yatta.
Não posso dar nota ao filme, tampouco oferecer qualquer tipo de conclusão bem amarrada a este texto. Mil palavras bem articuladas não podem transpor a realidade dilacerante de um grito de dor. Essa frase, por exemplo, talvez tenha sido muito floreada, muito bonitinha. Calemo-nos, portanto. Tudo o que posso dizer é para que você assista ao filme e tire suas próprias conclusões.













