Otto Guerra, baluarte da animação brasileira contemporânea, é um caso interessante: ele está menos preocupado em desenvolver um estilo de animação próprio do que em se adaptar às demandas de cada projeto.
Por isso, fica perfeitamente confortável em servir às particularidades dos quadrinistas que tanto ama: Luiz Fernando Veríssimo (o curta “As Cobras”), Adão Iturrusgarai (“Rocky e Hudson: os Caubóis Gays”), Angeli (“Wood e Stock: Sexo, Orégano e Rock ‘n’ Roll”) e Laerte (“Cidade dos Piratas”, talvez seu filme mais famoso).
O que une tudo isso são o seu deboche e irreverência — que, a um só tempo, são um pouco demais e, paradoxalmente, de menos. É que, por um lado, os filmes podem resultar demasiadamente ligeiros e inconsequentes, mesmo que estrategicamente; por outro, nem só de deboche é feito um longa-metragem.
E, no entanto, “O Filho da Puta“, título que, pude testemunhar, suscitou inúmeras confusões na bilheteria do cinema — sem dúvidas, para alegria de seus realizadores — precisa urgentemente de mais deboche. Infelizmente, o filme só tem o palavrão que o nomeia a oferecer nesse quesito.
O longa nos apresenta a Ismael (voz de Gabriel Martins, diretor de “Marte Um“), o titular filho de rapariga, que, por ter como genitora uma ilustre meretriz local, é feito de capacho pela população de Veredas, sertão de Minas. Certa feita, o sujeito decide pôr o pé na estrada e, acompanhado do seu fiel vira-lata Bacalhau (Matheus Nachtergaele), toca para Porto Seguro, em busca do pai.
Desta vez, Guerra assina a direção ao lado de outros três realizadores: Erica Maradona, Sávio Leite e Tania Anaya. Ao seu lado, o estilo sempre maleável de Guerra mira na literatura de cordel: figuras saídas de xilogravuras, painéis monocromáticos, personagens vistos de perfil. Para dar um charme a mais, um ou outro detalhe do cenário texturizado com giz ou carvão.
Tudo muito bem feito, mas “O Filho da Puta“, em termos estilísticos e narrativos, revela-se apenas um pout-pourri de referências do sertão. De Guimarães Rosa a Glauber Rocha, passando por Canudos e, na voz de Nachtergaele, “O Auto da Compadecida“, está tudo aí. Mas falta a criatividade esdrúxula e ilimitada dos prosadores sertanejos, algo que, em uma animação, poderia ser levado às últimas consequências.
Basta pensar nos hilários e rocambolescos títulos dos cordéis que vemos todos os dias nas bancas de bairro, e o potencial desperdiçado fica claro. Mas não: “O Filho da Puta” não é nem muito engraçado — sua principal piada consiste em reiterar a ingrata alcunha de Ismael ao final de cada cena —, nem muito inventivo.
Há lampejos: um bando de urubus cuja sombra forma um caixão no solo árido, ou o modo como dois gêmeos siameses parecem uma só pessoa quando vistos de perfil, sem falar em uma belíssima sequência onírica dentro de uma baleia. Mas, com uma trama episódica e basal, isso é pouco.
No mais, com meros 72 minutos, “O Filho da Puta” tem a dúbia honra de ser um daqueles filmes que terminam justamente quando parecem começar. Apesar de toda a promessa grosseira do título, está aí um filme que comete o pecado de ser certinho demais.















