“O Auto da Compadecida 2” é o segundo filme de Guel Arraes nos cinemas brasileiros em 2024: o primeiro deles foi “Grande Sertão”, lançado no início do segundo semestre. Não dá para negar que se tratam de obras ambiciosas — adaptações de clássicos do teatro e da literatura nacional, e de autores marcados com uma prosódia poética e popular ao mesmo tempo. Curiosamente, a sensação deixada por ambos é a mesma: na ânsia de conseguirem homenagear suas origens à altura, as duas produções emulam uma sofisticação que mais afasta do que aproxima o público.
A continuação do clássico de 1999 se passa pouco mais de 20 anos depois da trama original, em um novo ambiente do sertão: o cangaço deixa de ser a ameaça principal para dar lugar à pressão dos coronéis e dos empresários donos de rádios, representados, respectivamente, pelo Coronel Ernani (Humberto Martins) e Arlindo (Eduardo Sterblitch). A ideia pode até ser boa, mas a dupla de roteiristas Guel Arraes e João Falcão (auxiliados ainda por Jorge Furtado e Adriana Falcão) passa longe da fineza e malícia do texto de Suassuna.
No original, a teia com que João Grilo (Matheus Nachtergaele) e Chicó (Selton Mello) desnudavam a avareza do bispo e do padre era um dos charmes da primeira parte. Agora, tudo está às claras desde a primeira aparição de cada vilão — se Humberto é o puro e simples mau, Sterblitch junta o Poderoso Castiga da época do Pânico na TV com o atual personagem da novela das seis “A Garota da Momento” e cria um Silvio Santos do sertão. Os dois se somam a Fabiula Nascimento, com uma Clarabela que poderia ter ficado na sala de edição. Dos novos personagens, salva-se apenas Antônio do Amor, em que Luis Miranda recorda a loucura do ‘Terça Insana’, especialmente no hilário momento em que o personagem, vestido de padre, ao entrar na igreja, levanta as mãos como se estivesse sendo pego pela polícia.
Todo o novo universo, entretanto, quase nada acrescenta à força-motriz que deveria guiar “O Auto da Compadecida 2”: pouco vemos Chicó e João Grilo juntos em cena. Se o primeiro está lá no triângulo amoroso com Clarabela e Rosinha (Virginia Cavendish, tão bonita quanto há 24 anos), o segundo se vê envolvido na confusão política nada interessante. Sorte a nossa que Selton e Matheus retornam tão à vontade nos personagens que conseguem segurar o filme sem dificuldades — as cenas de cada um falando no rádio, com a doçura de Chicó na mensagem de amor e a sabedoria de Grilo, recordam por que amamos aqueles dois. Quando estão juntos, então, Guel e todo o time do filme nem precisam fazer o esforço, bastando deixar a câmera rolar — pena que isso acontece por menos tempo do que mereciam.
A decisão de dar um tom mais fabular a toda a história desta vez, ao optar por transformar o sertão em um grande palco teatral, se por um lado homenageia a origem de “O Auto da Compadecida”, por outro banaliza o recurso usado no original, precisamente na hora do julgamento de Grilo, em que todo o filme mudava de configuração — ainda, claro, mantendo o humor. Ao optar por efeitos visuais e gravações em estúdio em vez das locações, a sequência estiliza tanto aquele universo que contradiz a essência de fé e sobrevivência que torna aquela dupla tão única.
Neste sentido, a busca por uma suposta sofisticação narrativa e visual retira o caráter popular e não menos belo do original. “O Auto da Compadecida 2” não é um desastre, é verdade, mas sobrevive mais por conta do afeto criado lá atrás do que por competência dele mesmo.














