A diretora Lúcia Murat foi presa e torturada na Ditadura Militar em um período que assombrou o Brasil entre 1964-1985, uma parte dolorosa da nossa história que se entrelaça com a sua vida. Não por isso, alguns dos filmes da cineasta se contextualizam nessa época, como é o caso de “Que Bom Te Ver Viva” (1989) e “Quase Dois Irmãos” (2004). Desta forma, Murat retorna novamente ao tema, com um certo olhar frio de uma pessoa que, com o peso dos anos e da lembrança, busca agora um novo olhar sobre esses anos de chumbo.
“O Mensageiro” conta a história da jovem Vera (Valentina Herszage, sempre ótima!), presa e torturada em uma verdadeira fortaleza sob o comando do Major Damião (Bruce Gomlevsky). Os pais, Henrique (Floriano Peixoto) e Maria (Georgette Fadel), lidam com a dor e o desespero de encontrar a filha de maneiras distintas. Em meio à desesperança de se ver livre, nasce uma pequena confiança entre a presa política e o soldado Armando (Shi Menegat), o conduzindo a levar um bilhete para a mãe dessa jovem de família classe média alta desabrochando uma ligação entre mãe e soldado.
A frieza ressaltada no início do texto elucida os caminhos que Murat resolveu na humanização dos seus personagens, principalmente o soldado Armando que, mesmo sendo contra a tortura sendo apenas um trabalho e tudo que acontece em volta, permanece naquele lugar que lhe assombra. Há de ter muita frieza para colocá-lo nesse lugar e não tornar a projeção romantizada e/ou planfetária até porque, “O Mensageiro” é muito mais que que uma amizade incomum entre um soldado da tortura e a mãe da uma torturada; é sobre crescimento e libertação em meio aos domínios do poder em comprimir vidas.
Armando é um homem simples do sul que chega ao Rio de Janeiro como parte do meio sádico da ditadura. Mesmo ele não concordando com os atos, é ali que está o seu mundo. Ao momento em que se “alia” à Vera e conhece a mãe da prisioneira, há uma hipótese de redenção consigo mesmo, mas os danos são irreparáveis; seus blackouts e agressividade volta e meia se manifestam como consequência da sua posição.
Prisão da Ditadura x Prisão Familiar
Há um paralelo entre essas duas prisões representadas por Maria, uma mãe de família e dona de casa exemplar que não mede esforços para saber notícias da filha. O que começa como uma mulher presa às convenções sociais e a instituição casamento, torna-se uma mulher empoderada, livre com seu próprio pensamento e autonomia de sua vida, é um momento de reconciliação consigo mesma e enxergar para além do seu mundo, coisa que seu marido não aprende, não há evolução nesse homem que se autointitula racional.
Religiosidade
A religião sempre é uma válvula de escape, seja em qual lado for, ela está presente. Maria busca na igreja também motivos para manter sua fé e acreditar na mudança, auxiliada pelo Padre João (o ator argentino Javier Drolas, o Padre Graça da minissérie “Fim” do Globoplay). Ele, um homem de fé, prega os mandamentos de Cristo, mas em dado momento é sequestrado e torturado. Algo nesse plot lembra a perseguição da extrema-direita ao Padre Júlio Lancellotti que prega as palavras Dele, mas aqueles que usam o seu santo nome em vão estão do outro lado, a dos algozes. Que fraternidade é essa?
“1, 2, 3, terrorista no xadrez”
Murat imprime seu olhar angustiado, porém contido, acerca do diálogo e crescimento do sujeito a partir de uma barbárie e abusa de questões filosóficas como “Os Condenados da Terra” de Frantz Fanon, Hannah Arendt e cenas do filme “Macunaíma”, o herói sem caráter, uma alegoria orquestrada por Mário de Andrade que passeia por um Brasil fragmentado, metido a esperto, porém tolo e mal intencionado. Talvez seja por isso que a corrupção sempre vigora neste país tupiniquim e que, diferente dos nossos hermanos que tiveram 1125 torturadores julgados e condenados, aqui, nunca foram julgados ou presos e ainda são ovacionados por políticos sem qualquer compromisso com a realidade, com a sociedade, o seu povo e aqueles que foram violados, mortos, torturados e que ainda são nos dias atuais por assumirem seus corpos e vivências. Ainda hoje esperaremos por um mensageiro que coloque essa terra verde no seu devido lugar.













