Sabe aquele seu coleguinha de escola que adorava ser nojento e, que na hora do lanche, enchia a boca de comida, mastigava um pouco e a escancarava? Só para te deixar com ânsia? Pois bem, talvez o roteirista e diretor Damien Leone, criador dos filmes Terrifier e do seu vilão, o personagem Art, o palhaço, deva ter sido esse tipo de criança. Nos curtas e três longa-metragens – até o momento – que produziu com Art, o maior interesse dele parece ser lambuzar a tela com sangue.

Aliás, vamos relembrar como chegamos a este Terrifier 3: Leone criou Art, que apareceu e chamou atenção numa antologia com tem de horror no Halloween, hoje batizada aqui no Brasil de Terrifier: O Início (2013). O palhaço apareceu em dois curtas sangrentos e sobreviveu até a uma troca de ator. A partir do primeiro longa solo, Terrifier (2016), David Howard Thornton assumiu o personagem e o longa definiu as características de Art, que é mudo e demente, quase como um daqueles mímicos que costumávamos ver por aí, só que assassino. Ele começou como um matador sádico, mas logo se tornou um ser sobrenatural e voltou a tocar o terror em Terrifier 2 (2022).

A popularidade do personagem só cresceu, e hoje já podemos considerar Art como um novo ícone do gênero, seguindo os passos de figuras como Jason Voorhees, Freddy Krueger ou Jigsaw. Pena que a figura de Art, que é realmente enervante e perturbadora, tocando naquela velha coulrofobia (medo de palhaços), e a atuação de Thornton, sejam as únicas coisas que a franquia tem a seu favor. Porque, sinceramente, a esta altura com este terceiro filme, as coisas já começam a ficar cansativas.

Na trama, após os eventos do longa anterior, os irmãos Sienna e Jonathan (Lauren LaVera e Elliott Fullam) tentam reconstruir as vidas após escaparem dos ataques de Art. Porém, o monstro e a sua “companheira” Victoria (Samantha Scaffidi) acabam sendo libertados da hibernação e voltam a realizar um novo massacre, agora em meio às festas de Natal.

Leone é um cineasta fã, então, ele coloca algumas referências (discretas) no seu banho de sangue, e não há como negar que segue os passos de diretores que fizeram carreira no terror independente – assim como George Romero ou Sam Raimi, que ousaram ao lançar O Despertar dos Mortos (1978) e A Morte do Demônio (1981) sem a classificação indicativa da MPAA, o órgão etário do cinema americano, a franquia Terrifier também é feita com baixo orçamento e disposição a ignorar qualquer órgão capaz de inibir seu desejo de chocar. No novo massacre de Art, nem as crianças são poupadas.

E neste aqui, Leone até consegue escalar alguns atores “cult”, ou seja, muito ligados ao gênero, para fazer participações especiais ou pequenos papeis, como Clint Howard, Daniel Roebuck, e o mago dos efeitos de maquiagem dos anos 1970 e 1980, Tom Savini.

Por isso mesmo, é uma pena que, assim como no anterior, a experiência seja tão rasa, ignorando qualquer potencial para algo a mais. Confesso que gosto de uma matança tanto quanto qualquer fã de horror, mas Terrifier 3 traz apenas um esqueleto de história que não sustenta duas horas de filme. Leone é um cineasta muito indulgente – só para lembrar, o Terrifier 2 durava inacreditáveis 2h18! Em comparação, os massacres do Jason nos anos 1980 ficavam nos 90 minutos, às vezes até menos, o que ajudava a tornar a experiência mais divertida e palatável. Não há motivo para os filmes Terrifier serem tão longos.

É um filme de cenas coladas umas às outras, e desprovido de qualquer progressão dramática ou construção de tensão. O confronto entre Art e Victoria e a heroína só ocorre na meia hora final – até lá, ela só repete seu trauma enquanto o palhaço mata pessoas aleatórias. A cada 10 minutos, o sangue jorra na tela. E tudo termina com um gancho para o próximo. Ora, o gênero está cheio de exemplares com essas características, mas ao esticar os filmes e não trazer novidades – a única aqui é a decoração natalina – o diretor e os envolvidos acabam minando a diversão demente que esses filmes poderiam proporcionar. Não à toa, o melhor Terrifier ainda é o primeiro, direto e objetivo.

Ao longo do filme, ao menos Thornton e o roteiro encontram oportunidades de fazer piadas e neste filme algumas com o Art realmente funcionam – a maneira como ele consegue a barba de Papai Noel deve provocar risadas em quem curtir o humor demente de Terrifier. São cenas bem-vindas, pois ajudam no “carisma” – se é que se pode usar esse termo – do vilão e a trazer um pouco de frescor ao longa.

Ainda assim, Terrifier 3 tem pouco a oferecer além do choque pelo choque, e o nojo. Os técnicos dos efeitos de maquiagem acabam trabalhando mais que o diretor, e não é assim que deveria acontecer. Claro, muitos filmes do passado – e alguns recentes também – apostavam na sanguinolência, o “gore”, mas os melhores aliavam isso com histórias e personagens interessantes, ou demonstrações de criatividade com a câmera. Damien Leone e seu Art ainda não deram esse próximo passo. Resta esperar que consigam, e que no inevitável Terrifier 4, o palhaço traga alguns números novos para o picadeiro.