Três coisas se destacam em The Man I Love: a trilha sonora, o ritmo e Rami Malek. Não necessariamente esses três itens se apresentam de forma positiva no novo filme de Ira Sachs, mas quando os créditos terminam, eles se tornam aquilo que permanece ancorado na memória.
Estamos em Nova York, nos anos 1980, e, assim como em seu filme anterior — O Dia de Peter Hujar —, Sachs nos apresenta um artista gay, icônico e performático que se desnuda diante dos nossos olhos. Se Peter Hujar contava detalhadamente tudo o que viveu durante 24 horas, Jimmy George (Rami Malek) não nos conta, mas permite sermos testemunhas oculares de sua degradação.
O roteiro escrito pelo carioca Maurício Zacharias, que também colaborou com Motel Destino, é perspicaz em nunca dizer com todas as letras qual é a doença grave que o protagonista tem, mas faz com que todos o tratem como se tivesse a um passo de quebrar. Digo que essa escolha é sagaz por deixar implícito fatos que estão diante dos nossos olhos e que foram trabalhados a exaustão e eficácia em outros projetos como The Normal Heart e Angels in America, diferentemente de The Man I Love que não tem por centralidade explorar a AIDS. A década de 1980 vivenciou de forma avassaladora uma crise da AIDS que assolou a comunidade LGBTQIAPN+ e esse ambiente que Zacharias e Sachs nos levam.
Jimmy saiu de uma internação recente e tudo o que almeja é viver intensamente, apesar do corpo frágil e da morte que parece estar sempre no olhar do outro, mas nunca no seu próprio. Ignorando o quão vulnerável se encontra, ele se entrega à arte e a oportunidade de viver uma paixão avassaladora, deixando de escanteio seu companheiro Dennis (Tom Sturridge), que trata Jimmy como se fosse uma relíquia que precisa de todo cuidado possível para continuar inteira.
Nesse processo, é curioso como o silêncio, as ações de afeto e cuidado ensurdecedoras de Dennis, a fim de manter estável a condição de Jimmy, são uma oposição direta ao protagonista. Não que Jimmy fale muito, mas ele é intenso em performar a existência. Por isso canta sempre que é possível, fator interessante para a narrativa, uma vez que a trilha sonora dos anos 1970 aparece em momentos oportunos e marcantes na voz de Malek, tornando-se um dos chamariz de The Man I Love: dança quando quer e está sempre sob o holofote, eclipsando qualquer um que cruze o seu caminho.
Dennis se atrai por isso, assim como Vincent (Luther Ford), o vizinho novo que fica obcecado pelo personagem de Malek. Sabe quando Marília Mendonça diz “eu me apaixonei pelo que inventei de você”? Parece ser justamente o sentimento dominado pelo vizinho. Diferentemente de Dennis, ele não está preocupado com o ser humano Jimmy, mas em orbitar em torno da estrela Jimmy George, idolatrá-lo e poder mostrar ao mundo que sua atenção é correspondida.
O que mais me faz refletir é que Jimmy parece alheio a toda essa devoção e desejo que desperta, como um homem niilista, egocêntrico e autocentrado, cuja maior preocupação está ancorada em si mesmo e alcançar o grande papel da sua vida. A narrativa colabora também para esta percepção, porque nunca nos mostra de verdade algo que justifique esses extremos em busca de seu afeto; no entanto evidencia o artista e sua necessidade de ser perfeito e de ter um último papel antes que a intensidade da sua existência e a fragilidade do seu corpo cobrem um preço alto.
As atitudes de Jimmy também é o que dita o ritmo de The Man I Love. Como ele não se permite relaxar e ser um mero espectador, os desdobramentos de suas atitudes nos prendem a história que quer ser contada. Parte deste mérito também pertence a Rami Malek. Em muitos momentos, pensei estar diante de seu personagem em Bohemian Rhapsody, o ator repete os mesmos maneirismos utilizados para dar vida a Freddie Mercury, mas não posso deixar de reparar que Jimmy George carrega uma melancolia, a qual encontra-se latente na sua voz quando canta, na frustração quando a memória não acompanha a performance. Ainda assim, Malek precisa exorcizar qualquer vestígio de um projeto que se findou antes mesmo da pandemia.
Sachs faz de The Man I Love um projeto sobre observação. Estamos todos atentos aos passos e quedas de Jimmy e, mais do que isso, presos a intensidade como ele dança pela vida sendo arrastado não pela fragilidade que o toma, mas pelo desejo e a dedicação que estão todos dispostos a oferecer a ele, o que dá ritmo, plasticidade e vida ao filme de Ira Sachs.














