Dor, apenas dor. Talvez esse seja o sentimento universal da perda de um ente querido. A vida supostamente já não é a mesma com a sua ausência, há um longo caminho para cura e assimilação da perda. Contudo, uma perda pré-anunciada de uma pessoa enferma que, aos poucos, vai perdendo o brilho da vida, realmente, deve ser uma dor insuportável. O luto já antecede à própria perda e isso não somente machuca, como também deixa aquele que ainda aqui permanece em um certo estágio da pré-perda esperando aquele momento chegar. Experiência dolorosa.
Falar de morte e luto é sempre complexo, “Tuesday – O Último Abraço”, da diretora croata Daina Oniunas-Pusic, estreante na direção, coloca luz ao tema em uma alegoria de morte, vida e luto.
Tuesday (Lola Petticrew) é uma adolescente em estado terminal. Naquele que seria o seu derradeiro dia, ela recebe a visita da Morte (dublagem de Arinze Kene), manifestada por uma Arara que muda de tamanho a partir das sensações, mas a mãe Zora (Julia Louis-Dreyfus) não aceita essa condição e comete os maiores atos falhos (!!) para não perder a filha.
Há um consenso coletivo que diz ser pecado ou algo do tipo um (a) filho (a) morrer muito jovem e primeiro que seus pais. Zora sente que a qualquer momento pode perder a filha e não lida bem com esses sentimentos; prefere, de certa forma, alienar-se em uma pequena mentira ao passar o dia na rua fingindo que está no trabalho enquanto sai vendendo móveis e objetos da sua confortável casa para sustentar todo o aparato necessário para manter a sobrevida da filha e pagar a enfermeira, Billie (Leah Harvey). No momento em que pensa que finalmente conseguiu enganar a morte, diversas coisas alheias acontecem.
Reside aqui outra analogia assinada por Pusic acerca da necessidade do outro pelo outro em não querer deixar que ele vá: nesse sentido, é como se houvesse uma ruptura no alinhamento das coisas, da vida em que o fluxo não segue da maneira que deveria ser, ou seja, ao não deixar o corpo desencarnar por conta do seu luto, é como se todo o universo não conseguisse seguir adiante; Pusic trabalha isso de uma maneira muito discreta quando vemos mortos-vivos, o caos pelas ruas e a desestabilidade da natureza representada pelas aves e insetos. Não são eles que sentem os desastres antes mesmo de acontecer?
O luto do que antecede a perda está muito bem representada por Julia Louis-Dreyfus, figura carimbada na televisão americana com diversos Emmys por suas atuações cômicas em séries como “Seinfeld”, “As Aventuras da Velha Christine” e “Veep”. Trata-se de uma decisão acertada, pois ela transita entre o drama e a comédia muito bem e seu tom irônico e dramático casa com essa personagem que, outrora pode ser uma mulher vívida, alegre e divertida, mas que agora está presa nessa dor da dor.
Mesmo usando de alegorias de pássaro gigante e falante mensageiro da morte, a colisão de como o mundo não consegue seguir adiante normalmente quando a pessoa não deixa o outro ir, a mensagem de resiliência, continuidade e legado é bem rasa. Mas compreendo também que as dores são muito subjetivas, particulares e íntimas, e, talvez, seja por isso que o núcleo central seja o único explorado aqui. E talvez, só talvez, essa tenha sido a melhor escolha.












