A Lavanderia, da Netflix, é um daqueles filmes “de tema”, e um assunto chato ainda por cima (embora importante): o pano de fundo verídico da nova parceria do diretor Steven Soderbergh e do roteirista Scott Z. Burns é o escândalo dos “Panama Papers” que sacudiu o mundo há alguns anos, quando foram revelados documentos da firma Mossack Fonseca detalhando as operações “por baixo do pano” de milhares de empresas situadas em paraísos fiscais. Foi quando ficou claro algo que já se sabia por senso comum: políticos safados do mundo inteiro (inclusive do nosso querido Brasil sil sil); traficantes de drogas, armas e seres humanos; ditadores… Todos conduziam seus “negócios” tranquilamente graças à proteção desses paraísos fiscais offshore. Por “negócios”, entenda-se lavagem de dinheiro, propinas e crimes fiscais.

O filme já se inicia num momento de humor, com Gary Oldman e Antonio Banderas representando os dois sócios da Mossack Fonseca e se dirigindo à câmera, numa quebra da quarta parede, enquanto começam a explicar o sistema financeiro que tornou possível as suas “operações”. Esse é o tom do filme, e Soderbergh e Burns tentam tornar esse assunto mais acessível com sátira, um elenco fabuloso e um tom cínico. Mas seus esforços só conseguem ir até certo ponto, devido a algumas opções narrativas estranhas. A Lavanderia até tem bons momentos, mas no geral é apenas mediano e meio esquecível.

Baseado no livro do autor Jake Bernstein que pesquisou em detalhes a revelação do escândalo, “A Lavanderia” une fato e ficção ao se concentrar na personagem fictícia vivida pela estrela Meryl Streep. Ela interpreta Ellen, uma simpática senhora que perde o marido num acidente de navio e descobre uma fraude da companhia de seguro que torna inviável a sua compensação. Esse é o fio do novelo que, quando puxado, revela a cadeia de corrupção mundial que remonta à tal firma de advocacia Mossack Fonseca.

Esse segmento com a personagem Ellen é a melhor parte do filme. Mas com o tempo, a estratégia de Burns e Soderbergh se revela, e A Lavanderia meio que se transforma numa nova versão de um dos filmes anteriores da dupla, o suspense Contágio (2011), pulando entre vários países e personagens diferentes para mostrar o painel amplo do problema. A Lavanderia é Contágio, trocando o vírus mortal por corrupção e fraude no sistema financeiro, e trocando o suspense pela sátira. É uma abordagem adequada para o projeto? Até é, mas ela também acaba deixando este filme meio sem centro, como uma espécie de sucessão de vinhetas mal conectadas – um problema do qual Contágio, aliás, não sofria.

DISTRAÇÕES E MAIS DISTRAÇÕES

A certa altura da narrativa, Meryl passa a viver outra personagem, sob maquiagem, peruca e um figurino diferente. Ela até faz uma composição divertida: é a Meryl Streep afinal… mas qual é mesmo o propósito dessa opção que acaba tirando o espectador do filme? Se fosse outra atriz, Soderbergh teria feito isso? E como o filme fica com um aspecto episódico, alguns segmentos acabam sendo melhores do que outros. Um bem tenso e divertido envolve o ditador africano e sua tentativa de subornar a própria filha para abafar um constrangimento familiar. Esse se configura quase como um bom “minifilme” dentro da obra principal. Já o segmento na China perto do final é chato e se estende além da conta.

E, claro, sendo um filme de Steven Soderbergh, ele pode se dar ao luxo de escalar quem quiser até em papeis sem muito estofo: em A Lavanderia, Sharon Stone aparece como uma corretora imobiliária, um trabalho que poderia ter sido feito por qualquer atriz acostumada a pontas num seriado de segundo escalão. Outras figuras conhecidas como David Schwimmer de Friends, Will Forte e Jefrrey Wright dão as caras, sem precisar se esforçar muito. Com certeza, esses nomes foram atraídos pelo “tema”, além do diretor, mas algumas dessas aparições acabam distraindo, ao invés de servir à experiência.

E ao final, Soderbergh e Burns abandonam a sátira, o cinismo e a sutileza para escancarar de vez a demolição da quarta parede, ao fazer Meryl Streep se dirigir diretamente ao público, dizendo como deveríamos nos sentir após testemunhar toda essa safadeza – O desfecho do filme ainda traz uma participação muito especial do Brasil ao citar a nossa infame empreiteira Odebrecht, e sabemos onde isso levou… A Lavanderia até consegue trazer um pouco de diversão e reflexão, caso o espectador procure isso numa noite de tédio na Netflix. Mas, pelo talento envolvido e pelo tamanho do “tema”, é pouco, e ainda cai na tentação de querer “pregar” para o espectador nos minutos finais.  Pensando bem, não é à toa que os realizadores do filme colocam Meryl Streep para tentar nos indignar ao final de A Lavanderia: ela faz isso melhor do que o filme inteiro.

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Autor

  • Ivanildo Pereira

    Jornalista, professor de cinema em cursos pelo Cine Set e crítico associado à Abraccine. Começou a escrever sobre cinema após fazer o curso Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica, do crítico Pablo Villaça. Literatura, música e cinema são seus maiores interesses.

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