Uma das maiores tragédias ambientais da história de Los Angeles é retratada em “O Ônibus Perdido”. O novo filme do Paul Greengrass, diretor de sucessos como “Voo 93”, “O Ultimato Bourne” e “Capitão Phillips”, mostra um motorista de ônibus vivido pelo Matthew McConaughey e uma professora interpretada pela America Ferrera para escapar do incêndio e salvar a vida de 22 crianças.
Tive a oportunidade de conversar com a America Ferrera, atriz indicada ao Oscar por “Barbie”, em uma coletiva de imprensa para o mundo inteiro.
PERGUNTA: O Ônibus Perdido fala sobre heroísmo, mas também traz como tema a catástrofe ecológica e crise sistêmica, já que tudo começa porque uma empresa falha em fazer seu trabalho corretamente. De que maneira você acredita que as políticas ambientais e econômicas dos Estados Unidos têm papel nesse desastre? E você acha que elas continuam tendo influência hoje?
America Ferrera – Paul Greengrass, nosso diretor, sempre foi muito claro ao dizer que esse foi um dos principais motivos pelos quais ele quis fazer o filme. E, para mim, pessoalmente, foi o que fez essa história realmente importar neste momento e ressoar com o que estamos vendo ao redor do mundo. Estamos assistindo à manifestação real daquela frase dita pelo chefe dos bombeiros no filme — que, na verdade, ele disse na vida real durante a coletiva de imprensa — quando afirmou: “há mais deles, e estão piorando”. E estamos vendo isso não apenas em Los Angeles e na Califórnia, mas em todo o planeta.
Isso faz parte do que torna contar essa história algo vital e urgente. Para mim, o que mais amo na arte de contar histórias e fazer cinema é a capacidade de tirar as pessoas da própria cabeça, de suas justificativas e certezas enraizadas sobre por que determinadas coisas são aceitáveis, e, em vez disso, colocá-las dentro de uma experiência humana, visceral, algo que pessoas de fato viveram.
A cidade de Paradise passou por aquele dia horrível — e sobreviveu. A Mary e o Kevin viveram aquilo. Eles não sabiam qual seria o desfecho. Não sabiam se conseguiriam sair daquele ônibus com 22 crianças. Então, para mim, o grande poder da narrativa é recolocar o público dentro de uma experiência humana sobre algo que transformamos em um exercício mental. Desastres naturais e mudanças climáticas não são conceitos abstratos; são reais, e já estamos vivendo essa realidade.
Contar essa história sob a perspectiva humana traz a esperança de que, por meio da narrativa, possamos nos lembrar — e também nos conscientizar — das chances e escolhas que ainda temos enquanto seres humanos: de cuidar de nós mesmos, de cuidar uns dos outros, de cuidar dos nossos filhos e do futuro deles. Pessoalmente, todos esses foram os motivos que tornaram esse filme tão importante de fazer.
CINE SET – A cena mais marcante de O Ônibus Perdido, para mim, é quando sua personagem vê o fogo e percebe que pode não haver saída. Em suas conversas com Mary, ela compartilhou algo sobre como foi esse sentimento em algum momento? E como a perspectiva dela influenciou você ao filmar aquele momento?
America Ferrera – Obrigado pela pergunta, Caio. Eu tive a sorte de poder conversar com a Mary muitas e muitas vezes. Na primeira vez em que nos encontramos, falamos por 2h30 no Zoom, e ela respondeu absolutamente todas as minhas perguntas. Tanto ela quanto o Kevin começaram esse diálogo sobre o filme com a Jamie Lee Curtis, que é uma de nossas produtoras e realmente a peça-chave de tudo isso. Foi ela quem leu a resenha do livro no Washington Post, ouviu a entrevista no NPR (National Public Radio), encostou o carro no acostamento e ligou para o Jason Blum. Ela foi quem construiu essa relação pessoal com o Kevin e a Mary e conquistou a confiança deles, para que sentissem que a história seria adaptada com integridade e autenticidade — de um jeito que eles pudessem se orgulhar.
Isso significou que tivemos o envolvimento deles o tempo todo. Foi uma grande sorte para mim e também para o Matthew, que conversou com o Kevin, porque pudemos ouvir diretamente dessa mulher que inspirou a minha personagem. O Paul Greengrass deixou muito claro desde o início: não estamos fazendo uma cinebiografia, não estamos fazendo um documentário. Mas, certamente, esses personagens foram pensados para honrar a experiência e a jornada das pessoas reais envolvidas.
Quando falei com a Mary, uma das perguntas que fiz — e deixei claro que ela não precisava responder se não quisesse — foi sobre algo que eu teria de interpretar no filme: “houve algum momento, dentro daquele ônibus, em que você realmente achou que tudo tinha acabado? Em que sentiu que a esperança tinha se perdido e que aquilo não terminaria bem?”. E ela disse que sim ao contar que, naquele momento, começou a rezar para que a fumaça matasse ela e as crianças antes do fogo, que elas morressem por inalação de fumaça e não queimadas. É horrível sequer imaginar isso, mas era a realidade emocional dela: rezar por uma morte “menos pior” diante da pior morte possível.
Mary também contou que já era asmática antes do incêndio e que começou a sentir o corpo desistindo, fisicamente, ao inalar tanta fumaça durante as seis horas que ficaram ali. Ela descreveu essa sensação de que o limite entre estar ali, consciente, e simplesmente apagar era muito tênue. Contou também que pensava nos dois filhos lá fora, no meio do incêndio, os quais, felizmente, conseguiram sobreviver. O pai da Mary também foi fundamental neste processo todo: ele era fuzileiro naval e tinha morrido recentemente, mas, naquele dia, ela disse que sentiu que realmente se tornou a filha dele, como se tivesse se transformado na soldada que ele a ensinou a ser. Ela colocou a máscara, assumiu o seu posto e fez o trabalho dela: proteger aquelas crianças.
Teve ainda um detalhe interessante que o Paul e o Brad Inglesby, o roteirista, não sabiam, mas escreveram mesmo assim no roteiro. Mary disse para mim que, além dos filhos, pensou também em todos os lugares que gostaria de conhecer, caso sobrevivesse. Achei isso tão expressivo — porque revela a essência dessa jornada entre dois completos estranhos, que, no fim, se tornam pessoas vulneráveis uma diante da outra, expostas ao nível mais primitivo do que é ser humano. Quando você está sem saída e encara o fim, o que realmente importa? Em quem você pensa? Do que se arrepende? O que ainda deseja viver? Ver os filhos? Abraçá-los? Visitar um lugar que não deu tempo de conhecer?
Quando li essa cena no roteiro, foi ali que algo acendeu em mim como atriz. Porque fala sobre essa pergunta universal: o que existe dentro de cada um de nós quando a luta acaba e só resta encarar a verdade da nossa humanidade e da nossa mortalidade? Nem sempre teremos uma segunda chance. Felizmente, no caso deles, houve uma. E eu acredito que o filme fala justamente sobre isso: segundas chances. Sobre as escolhas individuais — como as do Kevin e da Mary, que ganham a oportunidade de continuar vivendo suas vidas, cuidar dos filhos, cuidar de si —, mas também sobre as escolhas coletivas: como aquela comunidade de Paradise decidiu se apoiar mutuamente. E, num sentido mais amplo, global, o filme pergunta: o que nós estamos dispostos a enxergar? Que segundas chances estamos dispostos a agarrar enquanto ainda as temos? Porque talvez chegue o dia em que não teremos mais escolha. Mas, por enquanto, ainda temos. Então, o que vamos fazer com essa escolha e com essa chance?
Acho que o fio que conecta as segundas chances individuais às segundas chances coletivas é exatamente o que torna essa história tão poderosa.
PERGUNTA: Quando alguém vence ou é indicado ao Oscar, passa a receber mais roteiros, mais oportunidades, mais escolhas. Você escolheu fazer este filme. Por que foi importante para você, como atriz, participar desse projeto? E, além disso, você sempre pensa na comunidade latina. Eu sei que, desde o início, então, conte para a gente sobre essa conexão com a comunidade latina ao fazer “O Ônibus Perdido”.
America Ferrera – Muitos fatores me atraíram para este projeto em particular. Sou uma grande admiradora do Paul Greengrass. Acho que, quando se trata de fazer filmes de ação e suspense que mantêm o público à beira da cadeira, mas sem perder a integridade da experiência humana, ele é o melhor. Sempre quis trabalhar com ele, então fiquei muito feliz com o convite.
Amo no filme essa ideia de homenagear o heroísmo cotidiano. E não falo apenas de primeiros socorristas. Claro, eles são heroicos, mas também acordam todos os dias conscientes de que escolheram estar de prontidão para o próximo desastre.
Quando estamos falando de uma professora, de um motorista de ônibus — ou estendendo isso a enfermeiras em hospitais, às pessoas que cuidam diariamente das nossas crianças — não são pessoas que acordam e dizem: “Hoje vou colocar a minha vida em risco”. E, ainda assim, quando chega o momento, quando o chamado acontece — como quando Kevin decide virar o ônibus para salvar aquelas crianças em vez do próprio filho e da própria mãe, ou quando Mary precisa escolher entre entrar naquele ônibus com 22 crianças que ela conhece — ou fugir com os próprios filhos — essas pessoas comuns são obrigadas a tomar decisões extraordinárias.
Para mim, é muito bonito contar uma história que celebra essa nossa capacidade de cuidar uns dos outros. De amar os filhos de outras pessoas da mesma forma que amamos os nossos, com a esperança de que, quando você não puder chegar até seu próprio filho, alguém vai estar lá, cuidando e amando aquela criança. Lembrar que somos capazes disso é também lembrar da nossa humanidade e da humanidade dos outros.
Sobre a questão da comunidade latina — eu nasci e cresci na Califórnia, em Los Angeles. Quando você pensa nas pessoas que mantêm nossa vida cotidiana funcionando, estamos falando de latinos, de minorias. Sabemos quem apareceu durante a pandemia, quem manteve os hospitais funcionando, quem manteve a comida nas mesas, nos mercados. São heróis do dia a dia. Pessoas comuns, sendo extraordinárias todos os dias.
Amo o fato de que Mary e Kevin — que hoje são professores de história — pessoas que acordam todos os dias para educar os filhos de outras pessoas — tenham agora sua jornada retratada nas telas com o tratamento cinematográfico do Paul Greengrass. Para mim, isso é muito natural. Eu cresci cercada de heróis cotidianos. Minha mãe era uma mãe solo, trabalhando dia e noite para colocar comida na mesa. Foram professores, amigos que me davam carona… sempre foram pessoas comuns que tornaram o impossível possível na minha vida. E eu amo poder celebrar gente assim.
PERGUNTA: Não há nenhuma menção direta às mudanças climáticas na trama, exceto por aquele espaço em branco na ficha sobre o incêndio. Quais você considera serem os prós e contras dessa abordagem de não citar diretamente a questão climática? Como essa escolha foi discutida durante a produção?
America Ferrera – Essa foi certamente uma escolha feita pelo nosso roteirista, diretor e produtores. Eu acho que é uma decisão importante que um contador de histórias precisa tomar: quem é o seu público? Quem você está tentando trazer para dentro da conversa? Acho que existem momentos em que a narrativa se apoia no que é implícito — e, às vezes, quando você torna algo explícito demais, acaba tirando o poder da própria história. Você prejudica o trabalho das imagens e da linguagem cinematográfica, que é justamente fazer você sentir e perceber as conexões — entender que essa é uma realidade que estamos presenciando também em nossas vidas.
Realmente acredito que este filme não é um documentário nem uma reportagem. Se o transformássemos em uma discussão política, perderíamos parte do público. O grande poder da narrativa, que mantém as pessoas conectadas à sua experiência humana, está em trazer mais gente para dentro da história. E, às vezes, quando a conversa se torna muito explícita, panfletária, ou volta para o campo das palavras e dos argumentos — que apenas reforçam posições já tomadas —, você impede que a história cumpra sua magia: a de tocar o coração e o sistema nervoso das pessoas de uma forma que um debate noticioso jamais conseguiria.













