Ao olharmos para a filmografia de Guillermo del Toro, um traço marcante é o seu fascínio por monstros. Ele não só os traz para o centro das discussões como também os humaniza ao focar em suas emoções, questões de identidade e sofrimentos. Frankenstein não foge desse olhar, mas tem como diferencial ser o projeto da vida do cineasta, sendo o filme mais importante de sua carreira artística.

Escalado para interpretar o pai da criatura — Victor Frankenstein —, Oscar Isaac celebra a parceria com o diretor e os desafios que se autoimpôs para vivenciar o arrogante cientista obcecado pelo conhecimento. O Cine Set participou de uma coletiva de imprensa na qual o ator falou sobre seu processo de preparação e sua ligação com outras adaptações da obra de Mary Shelley.

Pergunta — Quando você teve acesso pela primeira vez ao Frankenstein, de Mary Shelley, ou ao clássico filme de 1931, dirigido por James Whale? Você pode compartilhar com a gente qual foi a sua primeira impressão desse monstro icônico e se trouxe elementos disso para interpretar o seu Victor Frankenstein?

Oscar Isaac — Acredito que a primeira vez que essa história realmente me impactou foi no filme do Kenneth Branagh com o Robert De Niro. E acho que eu estava justamente me apaixonando pelo cinema, depois pela atuação e por todo o processo. Eu era obcecado pelo De Niro. Vê-lo fazer aquilo foi incrivelmente emocionante, eu me lembro bem. Depois disso, li o livro da Mary Shelley e fiquei muito impressionado, mas minha cabeça ainda não estava totalmente dentro da história.

Quando revisitei o material agora, depois daquele primeiro encontro com o Guillermo, tudo me impactou de uma forma completamente diferente. E, claro, eu já conhecia o filme do James Whale e o icônico Boris Karloff.

Cine Set — Quais inspirações você teve para criar seu personagem? Que mudanças você precisou enfrentar para interpretá-lo?

Oscar Isaac — Certamente houve uma transformação física. Eu queria que ele fosse magro, com uma aparência faminta [risos]. A única coisa que vemos ele ingerir é leite. Eu queria esse elemento quase lupino nele, por isso passei muito tempo cortando calorias. Eu comia uma vez por dia.

É engraçado, porque conforme você envelhece, todo esse esforço pesa mais. Eu pensava: “ok, estou bem” [risos]. Mas, na minha cabeça, eu estava parecendo um palito. Quando olho hoje, penso: “uau, isso dá muito mais trabalho conforme se envelhece”. Isso foi muito importante para mim e também para o visual, para a maneira como ele veste aqueles figurinos.

A criação de um personagem é um exercício coletivo. Claro, eu trago o corpo, a voz e o elemento emocional, mas isso é apenas uma parte. Aí entra a Kate Hawley, figurinista, fazendo o que ela faz, e o Tim Nolan, responsável pelo cabelo. Ele cria toda aquela escultura. De repente, tudo começa a tomar forma e sai do meu controle. Não é sobre eu tentar construir algo sozinho e apresentar. É juntar todas essas peças e deixar que elas ganhem vida.

É como plantar pequenas sementes no chão e ver o que brota. Essa é a parte mágica — e também assustadora —, porque todas as possibilidades se tornam aquilo que chega ao final.

Outra parte essencial foi me manter fiel à verdade emocional: a conexão com o que significa viver à sombra de um pai muito complicado, tanto para o Guillermo quanto para mim. Nossos medos e esperanças de nos tornarmos pais, essa jornada. Isso sempre esteve muito próximo de nós. Por isso, eu sempre me senti emocionalmente ancorado. 

Pergunta — Li que você baseou seus movimentos em rock stars como Prince e Jimi Hendrix. Ao assistir ao filme, isso fez muito sentido para mim, porque Victor é um personagem maior que a vida, como esses músicos. O que veio primeiro na construção dele: a voz, a postura, as mãos, ou tudo misturado?

Oscar Isaac — Isso foi algo que o Guillermo e eu conversamos logo no início. Ele estava menos interessado naquele cientista médico tradicional e mais focado em um Victor que se expressasse como um artista. Uma expressão intensificada, uma busca pela verdade interior. Os artistas conseguem entrar nesse estado.

Muito disso vem do trabalho genial da Kate Hawley. Assim que ela começou a me vestir com aquelas calças boca de sino xadrez, os chapéus, as luvas e os coletes — muitas das referências dela também vinham do Hendrix —, tudo começou a fazer sentido.

O Guillermo dizia que, naquela cena médica em que eu falo com os alunos, aquilo era como uma ária, quase uma ária operística. Eu poderia estar cantando. Ele me dizia: “eu preciso que você domine aquele espaço”.

É interessante porque, de um lado, você tem a criatura no zero absoluto. Sem julgamento, sem ideia, apenas absorvendo o mundo. Do outro, você tem alguém completamente construído, uma construção de identidade e de ego, essas personas que ele quer ser.

Quando coloquei aquelas botinhas de salto alto, pensei: quem é o homem que eu conheço que anda de salto alto com naturalidade? Prince. Eu vi o Prince dominando o palco e trouxe um pouco disso. Victor está na encruzilhada entre dor e prazer. A dor está no coração dele, mas, como o Marquês de Sade, ele a usa como combustível para o prazer. Em certo ponto, o sistema nervoso dele precisa de mais. A crueldade passa a ser o que lhe dá maior prazer.

Admito que foi estranho interpretar alguém tão sombrio, mas, ao mesmo tempo, foi muito prazeroso. Havia uma liberdade quase niilista nisso.

Pergunta — Quais elementos pessoais você colocou em Victor Frankenstein?

Oscar Isaac — Quando eu e o Guillermo nos encontramos pela primeira vez para falar sobre isso, nem chegamos a discutir o filme. Falamos dos nossos pais, da dor que herdamos deles junto com o amor, dos traumas religiosos, de crescer à sombra disso, de querer escapar e não repetir os mesmos padrões — e acabar exatamente nos mesmos lugares.

Falamos sobre nos tornarmos pais e o horror de percebermos alguns dos mesmos erros se repetindo. Quanto mais tentávamos fugir, mais corríamos direto para essas mesmas questões. O absurdo disso tudo.

Isso sempre esteve no núcleo emocional do personagem, não importa o quão extravagante ele fosse. Era essa dor pessoal, esse medo e essa esperança. Para o Victor, no momento em que a mãe morre, ele começa a correr. Ele só foge. É impossível acompanhá-lo. Ele é como o coelho de Alice no País das Maravilhas, correndo sem parar. Porque, se ele parar, tudo desmorona.

Quando a criatura nasce, tudo realmente desmorona, porque ele não tem mais para onde correr. Isso torna o personagem emocionalmente muito rico de interpretar.