Lá nos anos 1990, todo mundo começou a falar do cinema iraniano que conquistou o mundo com suas histórias humanistas e filmes sem muita produção. O cineasta Abbas Kiarostami (1940-2016) foi um dos que mais se destacou nessa onda do moderno cinema do Irã, que ainda hoje entrega grandes filmes com frequência. E de fato, pode-se dizer que esse momento começou com Close-Up (1990), uma experiência notável ainda hoje, repleta de camadas e significados. Não à toa desde o lançamento, Close-Up tem aparecido em várias listas de melhores filmes da história do cinema, como as da revista Sight and Sound e do British Film Institute (BFI).

É um filme relativamente simples, em termos de forma, mas que consegue dar um nó na cabeça de quem assiste. Baseado em um caso real do final dos anos 1980, um sujeito chamado Hossain Sabzian foi preso por se passar pelo cineasta Mohsen Makhmalbaf, um nome popular do cinema da época e estava enganando uma família, fazendo-os acreditar que eles participariam do seu próximo projeto. Sabzian foi julgado pelo crime.

É aí que vem o pulo do gato: Kiarostami, ao saber dessa história, se aproximou de Sabzian, à princípio com a ideia de fazer um documentário tradicional sobre ele. Porém, ao conhecer a figura, Kiarostami decidiu expandir o projeto: ele convenceu Sabzian, a família, o jornalista que expôs a história e o juiz do caso a reencenarem tudo a respeito do episódio. Então, no filme, vemos as pessoas reais envolvidas na história reencenando um evento que aconteceu com elas. Essas pessoas, que não são atores, estão interpretando a si mesmas, envolvidas em algo real e o efeito é simplesmente desconcertante e muito poderoso. As linhas entre realidade e ficção ficam bem tênues. O próprio Kiarostami aparece de vez em quando, mas de costas e seu rosto nunca é visto.

SABOR DA VIDA REAL

“Close-up” começa com o jornalista a caminho da casa da família, já com a intenção de expor o farsante. Acompanhamos a conversa dele com o motorista do carro que o leva, onde já recebemos algumas informações sobre o que veremos a seguir. O filme, então, se permite uma digressão, quando vemos alguns momentos do motorista esperando pela prisão: ele colhe umas flores e chuta uma lata, que sai rolando pela rua. É esse tipo de coisa que ajudou a criar o panorama e o imaginário do cinema iraniano nas mentes das pessoas: a maioria dos cineastas cortaria essas cenas, mas para Kiarostami – e alguns dos seus pares – elas são tempero para história, um sabor da vida real que geralmente não vemos em filmes.

Depois o cineasta recria o julgamento de Sabzian com longos planos sem cortes onde esse personagem tão interessante é examinado, não somente pelo juiz, mas também por nós, espectadores. De algum modo, Sabzian está atuando ali – afinal, há uma câmera na sua frente – mas ele também se expõe de modo real. Sua confusão, o amor pelo cinema e, no fim das contas, o sonho de fazer parte do mundo cinematográfico são sentimentos que acabam vindo à tona. É uma pessoa que aparece ali, em close-up (claro), mas ao mesmo tempo atuando como si mesmo, e isso é simplesmente hipnotizante.

SIMPLICIDADE APENAS NA SUPERFÍCIE

As camadas dessa história, que mistura o fascínio do cinema, o impacto da arte e também as diferenças sociais no Irã – afinal, Sabzian é pobre e a família a qual tentava enganar é rica – vão se desvendando diante dos nossos olhos, de forma fascinante. Intercaladas entre as cenas do julgamento, Kiarostami nos mostra outros dois momentos importantes: o primeiro encontro da mãe da família com Sabzian, quando a mentira nasceu; e a recriação da prisão dele. Esses são os únicos momentos em que Close-Up fica mais parecido com um filme no sentido clássico e não com um documentário. A fotografia fica mais elaborada, mais “bonita”, como em um longa de ficção e na cena da prisão há até um ou outro movimento de câmera mais elegante, como um Dolly. É o contrário do que vemos no resto do longa, que apresenta uma fotografia mais granulada e a câmera frequentemente se mostrando escondida para captar os momentos.

Isso só adiciona à complexidade da obra, que parece simples apenas na superfície. E, claro, ninguém é mais complexo do que o próprio Sabzian. No fim, Kiarostami o expõe como um cinéfilo apaixonado e que se deixou levar, ele mesmo, pela ilusão. Até onde ele iria com a sua encenação é algo para cada espectador responder. Mas é difícil não se comover com a exposição da própria alma dele diante da câmera de Kiarostami, cuja abordagem nunca parece sensacionalista ou exploratória. Pelo contrário, ele parece movido por uma genuína curiosidade a respeito daquela pessoa.

Sabemos que o mundo do cinema atrai muitos malucos: gente que sonha em fazer parte dele ou em se aproximar de astros ou grandes diretores. E embora Hossein Sabzian com certeza seja um deles, o olhar de Abbas Kiarostami e de Close-Up não é de recriminação ou de chacota. Pelo contrário, ao filmar o encontro entre Sabzian e o verdadeiro Mohsen Makhmalbaf, fica clara a intenção do cineasta e do filme: retratar uma história humana sobre uma pessoa contraditória, mas especial, e que fez o que fez motivado, acima de tudo, por amor à arte. É esse enfoque humanista que tornou o cinema iraniano das últimas décadas especial e Close-Up permanece, sem dúvidas, como uma das grandes realizações da cinematografia do país.