Admito que tudo o que conhecia sobre “Wicked” antes de assistir ao filme eram as músicas que tocaram em episódios ocasionais de “Glee”. Essa era a maior ligação com o musical da Broadway escrito por Winnie Holzman e inspirado no livro homônimo de Gregory Maguire que eu tinha. Assim, assistir a produção de Jon M. Chu (“Podres de Ricos”) para os cinemas foi uma mistura de sensações entre indignação, identificação e anseio pelo que está por vir. 

A história da improvável amizade entre Elphaba (Cyntia Erivo) e Glinda (Ariana Grande), conhecidas posteriormente como a Bruxa Má do Oeste e a Bruxa Boa do Sul, respectivamente, conseguiu me cativar pelo subtexto presente nas músicas e nas discussões que “Wicked” levanta. Acompanhar os passos pela Universidade de Shiz é como embarcar em um coming-of-age que subverte as idealizações feitas a priori sob os personagens e, ao mesmo tempo, em um relato lúdico e cruel sobre discriminação. Neste último aspecto, “Wicked” poderia ser mais do mesmo e se concentrar em debater o bullying e preconceito enfrentado por Elphaba, mas a escolha é muito melhor, suscitando um recorte de gênero e raça que se mantém constante por toda a produção.

A abordagem por si só seria implícita, considerando que a protagonista é uma mulher de pele verde, mas a escolha de Erivo para interpretá-la acrescenta mais camadas ao discurso político que “Wicked” carrega. A atriz evoca um olhar permeado por angústia, tristeza e dor – não mágoa – que transpassa para o público as sensações e as inquietações que sua personagem traja. Rejeitada pelo pai, vista como escória por todos com quem convive – menos os animais – não é de se surpreender que o próprio ato de existir seja uma resistência. As trocas tidas com Elphaba durante todo o longa remetem muito a questões de mulheridade negra e como estamos constantemente sendo preteridas pela maioria das pessoas. 

Elphaba se coloca no posto de estar sempre sob escrutínio, por isso se oculta. Algo notado, por exemplo, na cor e no design das roupas constantemente pretas com detalhes em tons neutros e geometricamente simétricos e com pontas, para mostrar também a rigidez com que trata a si mesma. Afinal, ela é gentil e empática com as outras pessoas, mesmo que a tratem mal. O roteiro a constroi de forma que todos os ataques que recebe sejam doloridos também em quem os contempla, afinal, o que fez para ser tratada dessa forma? Por que precisa ser isolada? Deixada à solidão? Em um universo em que até animais falam e ministram aulas, qual o problema em ser verde? Mais uma vez. “Wicked” retorna a discussão sobre raça e o peso de ser uma mulher que não se encaixa nos padrões sociais. Algo latente quando a irmã de Nessarose (Marissa Bode) é posta ao lado de Galinda (Grande). 

É interessante como “Wicked” subverte as apresentações que faz da personagem de Ariana Grande. Em sua primeira aparição, a impressão que passa é de que iremos acompanhar a sua história e como fez parte da equipe que livrou Oz da terrível Bruxa Má do Oeste. Conforme a narrativa avança, no entanto, percebemos que Galinda é uma mistura de Rachel Berry com Regina George: narcisista, egoísta, egocêntrica e fútil. Vou me permitir um comentário moralista e confessar que enquanto a conhecia me indagava se era justo que a história fosse sobre Galinda e não sobre Elphaba. Talvez fosse a identificação com a personagem menos favorecida ou apenas o incômodo pertinente de ver a reprodução do ideal feminino masculino ter o domínio de uma produção de fantasia mais uma vez. Foi bom estar enganada e perceber a cada reviravolta o quanto o roteiro era muito mais do que minhas primeiras impressões fomentaram. 

O contraponto entre as duas personagens principais femininas e a amizade que nasce entre elas é o ponto alto dessa narrativa. Há uma química potente entre Cynthia Erivo e Ariana Grande que se torna mais forte com o encontro entre suas vozes e no quanto transparecem as questões  instigantes de suas personagens, seja a resistência de Elphaba, seja a futilidade de Galinda. Jonathan Bailey complementa o trio esbanjando química com qualquer figura com a qual contracena, quebrando mais uma vez as perspectivas em torno do desenho narrativo que parece se formar. Seu personagem é galante, encantador, despojado e parece fazer uma boa combinação com Galinda, no entanto Elphaba é quem captura sua real atenção, fazendo com que o cara que quer apenas curtir, comece a refletir. Dedico este parágrafo a falar deles porque sinto que “I’m not that girl” ocupará um lugar especial nas minhas playlists do spotify, tal qual “Satisfied” de Hamilton. Além de poder exemplificar o quanto a questão de cor da personagem de Erivo a faz enxergar-se como alguém inferior, que não merece ter seus sentimentos retribuídos, mesmo que o entrosamento seja palpável. 

Jon M. Chu acerta mais uma vez na direção. O diretor consegue transpor o teatro musical para o cinema mesclando tanto a magia da fantasia quanto às temáticas que sua obra ressalta, trazendo um amadurecimento para narrativa que pode ser notado por meio das escolhas visuais presentes no uso das cores, no figurino, na cenografia e nos planos detalhes de Alice Brooks (Em um bairro de Nova York). Você mergulha no mundo de Oz, mas não há como se iludir, porque há tantos problemas quanto na nossa realidade – com direito até mesmo a propagação de fake news. 

“Wicked” é um filme interessantíssimo. Traz magia, fantasia, romance, mas não deixa de conectar-se com questões reais e incômodas, responsáveis por causar identificação e, claro, o sucesso que o musical da Broadway tem e, agora, sua versão cinematográfica. Estou ansiosa pela parte 2.