No drama espanhol Sirât, produzido por Pedro Almodóvar, temos uma situação inusitada explorada de forma ora bizarra, ora poética, pelo diretor/roteirista Oliver Laxe. Na história, acompanhamos um pai, Luís (Sergi López, de O Labirinto do Fauno), e o filho pequeno, Esteban (Bruno Núñez Arjona), viajando de rave em rave pelo deserto do Marrocos. Os dois estão à procura da filha de Luís, que parou de falar com a família e sumiu – os motivos para esse sumiço nunca são devidamente explicados.

Eles se unem a um grupo de viajantes que promete levá-los a uma rave incrível no meio do nada, onde haveria chances de a moça estar. É essa jornada que vamos acompanhar durante o filme, e o percurso vai trazer alguns desdobramentos inesperados e também um processo de autodescoberta.

Mas o filme não faz isso de forma direta: pelo contrário, desde o início, Sirât assume um caráter simbólico ao explicar o título em um letreiro, fazendo referência à tradição islâmica da travessia da ponte do Sirât, que separa os enfermos dos sãos. Laxe cria uma verdadeira odisseia para mostrar a transformação dos seus personagens, usando as paisagens do deserto para evocar reflexões existencialistas, mas também remetendo, às vezes, a filmes de suspense e ação que fizeram uso de tais paisagens, como O Salário do Medo (1953) e o recente Mad Max: Estrada da Fúria (2015). O filme também introduz um contexto apocalíptico, com os personagens se referindo a uma Terceira Guerra Mundial em dado momento, o que ajuda a deixar tudo ainda mais estranho e no limite.

O elenco, totalmente em sincronia com a proposta, dança ao som da batida eletrônica, grita e faz loucuras, demonstrando total entrega. O que é notável, tendo em vista que, segundo a produção, apenas López e Arjona são atores profissionais no longa. O contraste entre o pai e o filho, normais de classe média, e os malucões à procura da próxima festa traz força dramática ao início do filme, que começa como uma viagem até divertida.

Porém, a narrativa pega uns desvios sombrios e acaba testando os limites dos seus personagens, como numa jornada do purgatório até a redenção, e nem todos chegarão a atingi-la. Para o espectador, essa travessia do deserto é ora bizarra, ora emotiva. E, curiosamente, o filme consegue fazer sentir a transcendência ao final, graças à pegada forte dos seus realizadores, que parecem querer grudar o espectador na cadeira e fazê-lo assistir. Ame ou odeie ao final, Sirât é o tipo de filme do qual não se sai indiferente.

Autor

  • Ivanildo Pereira

    Jornalista, professor de cinema em cursos pelo Cine Set e crítico associado à Abraccine. Começou a escrever sobre cinema após fazer o curso Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica, do crítico Pablo Villaça. Literatura, música e cinema são seus maiores interesses.

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