Existe uma corrente por aí hoje em dia, uma noção, de que filmes do gênero terror só começaram a ficar bons de uns anos para cá, quando passaram a fazer “CRÍTICA SOCIAL” e a se valer de “METÁFORAS”, em maiúsculas. Esse pensamento demonstra uma terrível ignorância a respeito do gênero: o terror sempre se valeu de metáforas e simbolismos, e lidou com crítica social desde os tempos em que aquele paciente do doutor Caligari rondava sua vila, na época do cinema mudo.
Ultimamente, essa ideia também tem dado origem a filmes ora muito pretensiosos, ora didáticos demais em sua mensagem, ressaltando seus temas de forma tão evidente que ninguém na plateia fica com dúvida de que está vendo algo “relevante”, muito acima das produções nas quais Jason ou Freddy Krueger matavam adolescentes — e, claro, há metáforas e simbolismos nesses filmes também.
E aí aparece algo como Pecadores, que marca a nova parceria entre o astro Michael B. Jordan e o diretor Ryan Coogler, também autor do roteiro — juntos, eles fizeram Fruitvale Station – A Última Parada (2014), Creed (2015) e Pantera Negra (2018). É um filme que busca um naturalismo e, claro, trata da temática racial nos Estados Unidos, mas também é um longa de terror, sanguinolento, que não tem medo de se entregar às convenções do gênero e ao ridículo que, às vezes, vem com elas. A costura desses dois filmes tão diferentes funciona — na maior parte do tempo — o que é prova do talento de Coogler.
E é um filme divertido, um blockbuster épico que não se esquece de entreter a plateia e não tem vergonha disso. Ou seja, um produto ligeiramente diferenciado no panorama do terror moderno.
Mississippi, anos 1930: um clube de blues cercado por demônios e racismo
Em Pecadores, Jordan interpreta dois papéis, os dos gêmeos Fumaça e Fuligem, irmãos adultos negros com dinheiro (obtido pelo crime e pelo contrabando de bebida) e meios para viver como querem no Mississippi da década de 1930. Eles querem abrir um clube de blues para os negros da região e contratam colaboradores para a inauguração do lugar. Mas há um mal circulando pelas redondezas, que atacará o clube em sua noite de abertura — bem, na verdade, mais de um, pois a Ku Klux Klan também paira como ameaça nas proximidades.
Coogler não tem pressa em chegar ao terror. Praticamente por toda a primeira metade do filme, vemos Fumaça e Fuligem reunindo seus amigos, que incluem o músico beberrão Delta Slim (vivido por um espirituoso Delroy Lindo), a cozinheira e feiticeira Annie (a ótima Wunmi Mosaku) e, principalmente, o jovem guitarrista de blues Sammie (interpretado pelo músico Miles Caton, em sua estreia no cinema). E, na periferia, temos a jovem mestiça Mary (Hailee Steinfeld, aproveitando ao máximo as possibilidades do seu papel), que teve um caso com um dos irmãos. O elenco inteiro está muito bem, comandado por Jordan e seu considerável carisma — aqui, em dose dupla.
Nessa primeira parte, é um filme de vastas imagens, captadas de forma grandiosa pela diretora de fotografia Autumn Durald Arkapaw. Os espaços são amplos e os campos de algodão, lavados em luz. A direção e o roteiro confiam em seus personagens e atores — e também no público — para deixar a história respirar e se desenvolver. Há grandes momentos visuais ao longo de Pecadores, como a cena em que a câmera flutua por sobre o salão do clube, enquanto a música de Sammie faz com que outras energias espirituais, inclusive modernas, apareçam no local. É um momento que poderia parecer artificial e bobo, mas funciona pela força imagética que o diretor e seus colaboradores conjuram.
Do gótico sulista ao pacto com o diabo
E quando o filme se assume como produção de terror, ele passa a lembrar uma versão black de Um Drink no Inferno (1996). É aí que o roteiro dá algumas escorregadas: certos elementos da trama não ficam bem explicados e as motivações e o contexto dos vilões permanecem vagos.
Mas isso não atrapalha — muito — a diversão do espectador, que presencia momentos sanguinolentos, alguns jumpscares bem posicionados e uma entrega sem pudor à fantasia que o cinema de gênero pode proporcionar. De certa forma, Pecadores se encaixa na tradição do gótico sulista americano, com histórias de fantasmas e assombrações que alimentaram tanto a literatura quanto o cinema.
É também um filme que adentra o território do mito. Quem conhece um pouco sobre blues sabe de algumas histórias de guitarristas ou músicos que venderam a alma em encruzilhadas no meio da noite, em troca do sucesso — sendo o mais famoso deles o guitarrista Robert Johnson. Ryan Coogler e seu filme se aproveitam desse contexto, dessas lendas, para criar sua fábula, e falar de como o negro nos Estados Unidos nunca consegue se livrar, de fato, das assombrações que o perseguem. Não é um assunto novo, e outros filmes recentes também beberam dessa ideia — mas poucos deles têm o senso de grandeza e o abraço ao absurdo que Pecadores possui.















