Além de “Young Mothers”, dos irmãos Dardenne, outro filme que marcou o encerramento da competição oficial do Festival de Cannes deste ano foi The Mastermind, da diretora Kelly Reichardt, uma das vozes femininas mais importantes da cena independente americana e responsável por belos estudos intimistas sobre a natureza humana, como Certas Mulheres e “First Cow”.
Em Cannes, pode-se dizer que ela já tem uma boa experiência: participou pela primeira vez do evento pela mostra Um Certo Olhar, com “Wendy e Lucy” em 2008; em seguida, foi membro do júri em 2019; e, por fim, esteve presente na competição principal com Esculturas da Vida em 2022. Neste novo trabalho, a cineasta apresenta JB Mooney (Josh O’Connor, de “Rivais” e cada vez mais se revelando um grande ator), filho de um respeitado juiz (Bill Camp), que se encontra desempregado em pleno anos 70 e resolve se aventurar como ladrão de obras de arte. Se, a princípio, o plano simples dá certo, logo diversas situações fogem ao seu controle e o levam a uma jornada infernal pelo interior de Massachusetts.
The Mastermind é um filme curioso na filmografia da diretora. Primeiro, porque é divertido acompanhá-la encenando uma obra que foge um pouco das narrativas tradicionais do seu cinema, sendo interessante vê-la revisitando os filmes policiais e as comédias de assalto dos anos 70.
O segundo ponto é que esse caminho não a impede de se conectar com a linha intimista dos longas anteriores, extraindo o melhor da introspecção prosaica dos seus protagonistas — no caso de Mooney, um homem desanimado que não consegue fugir da rotina entediante.
Sinto que o filme funciona melhor quando foca no planejamento dos assaltos e na dinâmica pessoal do personagem, especialmente sua enorme dificuldade de se posicionar frente às suas problemáticas.
Reichardt consegue dar um acabamento dinâmico ao filme com um suspense eletrizante no primeiro ato, apoiando-se em plots mirabolantes, com confusões absurdas que seguem a proposta nonsense — como o roubo das pinturas no museu — e que também trazem, nas entrelinhas do texto, um olhar analítico sobre a situação política dos EUA na década de 70. Isso inclui a crise econômica refletida no desemprego, as tensões sociais deflagradas pelo fantasma da Guerra do Vietnã e o movimento feminista que começava a ganhar escopo.
Essa saborosa sequência de comédia de erros dá fluidez ao trabalho de O’Connor, perfeito no papel de Mooney, com uma performance desengonçada e intimista que cai como uma luva para o personagem absorvido pela insegurança.
Agora, tudo que acontece após o crime me fez desconectar do longa-metragem. O road movie que o personagem faz pelo interior americano para fugir da polícia é carregado por uma morosidade que não encontra o melhor timing para analisar os conflitos e aflições do protagonista em relação às suas escolhas, fracassos e às consequências dos atos criminais.
Além disso, Reichardt desperdiça o bom elenco coadjuvante, composto por John Magaro (Vidas Passadas), Alana Haim (Licorice Pizza), Hope Davis (Asteroid City) e Bill Camp (Guerra Civil).
Depois de um início promissor, pautado em um retrato melancólico sobre a decadência moral embebida no cinema policial setentista (e temperada pela comédia de situações), The Mastermind decepciona pela perda de sintonia entre as duas propostas fílmicas citadas.
No fundo, Kelly Reichardt tinha tudo para fazer mais um drama mundano com sutileza e inteligência — mas acaba se perdendo no meio do caminho, assim como seu anti-herói.














