O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, é um daqueles filmes cada vez mais raros hoje em dia, no sentido de que você como espectador nunca sabe para onde ele vai. Parte drama de época, parte exercício de suspense, o filme também serve para o diretor recriar a Recife da sua infância, revisitar lendas urbanas, criar imagens e situações desconcertantes e algumas engraçadas, e no fim de tudo, ainda falar sobre o absurdo que foi – e continua sendo – viver no Brasil, um país cheio de “piçarras”, como diz um letreiro na abertura.

Ambientado em 1977, O Agente Secreto já começa com uma cena tensa, com o protagonista Marcelo (Wagner Moura) parando em um posto de gasolina numa estradinha próxima a Recife e se envolvendo em uma situação bizarra. As coisas não melhoram muito quando ele chega à capital: seu objetivo é rever o filho e tomar conta dele depois da morte da esposa. Mas há um mistério em torno desse protagonista, um que só vamos elucidar bem mais à frente na história. Para completa, ele está sendo perseguido, também por razões que ficam claras depois – ou será que não?

O fato é que esses detalhes de trama não parecem importar muito. Kleber Mendonça Filho parece mais interessado em criar sensações de inquietude e paranoia que evoca lembranças de thrillers de suspense americanos dos anos 1970, mas agora filtrados por uma sensibilidade brazuca – a palavra “ditadura” não é mencionada em momento algum na história, mas quem viveu naquela época poderá reconhecer esse sentimento, espera-se, com mais propriedade. 

O protagonista basicamente só quer ir embora do Brasil com seu filho, e esse é seu pesadelo. É o medo de estar sendo vigiado e o alívio de encontrar consolo em umas poucas pessoas que compartilham desse medo, que conduz a narrativa, que diga-se de passagem é um feito técnico, com uma reconstituição de época inventiva e frequentes planos abertos que mostram a modificação de ruas e locações do Recife, expondo assim a ambição da produção.

No centro de tudo está Wagner Moura, com uma atuação precisa e nervosa, e seu carisma imediatamente evoca simpatia pelo protagonista. E as figuras coadjuvantes também são marcantes, mesmo algumas que aparecem em poucas cenas – há a sensação de uma história por trás da maioria das figuras em tela.

Em seu filme anterior, o documentário Relatos Fantasmas (2023), Kleber Mendonça Filho relembrava, e de certa forma revivia, os antigos cinemas de rua da sua cidade natal. O Agente Secreto parece brotar da mesma reflexão, pois no filme vemos os recifenses se assustando com os clássicos Tubarão (1975) e A Profecia (1976). Filmes de suspense fazem parte da proposta: O Agente Secreto se vale das convenções desse gênero – até no título – porém depois as subverte ou as chuta para longe. Com suas tangentes, o filme nos nega um desenvolvimento e uma conclusão convencional, o que pode frustrar alguns espectadores.

Mendonça Filho promete um pouco de ação, mas está mais interessado nas consequências. Alguns detalhes ficam vagos, o que não deixa de ser apropriado para um país sem memória – uma subtrama ambientada no presente realmente explora essa noção do Brasil que quer esconder as coisas, mas muitas delas teimam em vir à tona. Tudo isso faz de O Agente Secreto uma obra inquietante que provoca o espectador, e na qual um cineasta usa seus poderes, e os da sua equipe, para não só recriar um momento da sua cidade e da sua vida, mas também um estado de espírito. E esse espírito permanece com o espectador um pouco após a sessão.